Em meio às crescentes demandas da vida contemporânea, marcada por rotinas aceleradas, excesso de informações e pressões constantes por desempenho, encontrar sentido para a própria existência desponta como um elemento central para o bem-estar influenciando escolhas, comportamentos e a forma como os indivíduos lidam com os desafios cotidianos. Inspirado no conceito japonês de Ikigai – que significa razão de viver –, esse entendimento propõe o equilíbrio entre aquilo que se ama, o que faz bem, o que o mundo necessita e o que pode sustentar a vida. Mais do que uma filosofia abstrata ou uma missão única e grandiosa, especialistas apontam que o propósito de vida se constrói ao longo da trajetória individual, podendo favorecer maior estabilidade emocional, autocuidado, organização de rotinas equilibradas, resiliência e melhor capacidade de adaptação diante das adversidades, além de possíveis impactos positivos sobre a longevidade.
O conceito de propósito de vida não é único nem universal, sendo compreendido de diferentes formas pela Psicologia, Filosofia, Sociologia e Teologia. Em uma perspectiva eurocêntrica, essa ideia está fortemente associada à tradição judaico-cristã, na qual o propósito se relaciona a um percurso de vida capaz de conferir sentido à existência. Neste contexto, o comportamento do indivíduo é influenciado por valores culturais e religiosos que são inicialmente internalizados por meio das figuras parentais e dos primeiros processos de socialização. “Do ponto de vista psicológico, o propósito de vida também pode ser entendido como uma construção que se desenvolve ao longo do tempo, sendo influenciada pelas experiências individuais e pelas demandas sociais”, observa a psicóloga Ana Paula Todaro, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), campus Volta Redonda.
A psicóloga Ana Regina Noto, docente da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), acrescenta que não existe um modelo certo ou errado, mas diferentes formas de atribuir significado à própria existência. Para algumas pessoas, o propósito de vida está ligado a conquistas materiais ou pessoais, como riqueza, poder ou status social. Para outras, relaciona-se à superação de dificuldades, como limitações de saúde, físicas ou intelectuais. “Há ainda quem encontre propósito no ato de amar, cuidar e se dedicar às relações com outros seres vivos”, avalia. Esses sentidos são construídos ao longo do desenvolvimento humano a partir de influências ambientais como família, religião e redes sociais, e mesmo por aspectos individuais, a exemplo de traços de personalidade e experiências pessoais.
Quando deixa de ser uma ideia conceitual, o propósito de vida pode ser entendido como uma linha mestra que norteia a existência, ao mesmo tempo em que é influenciado por valores individuais. De acordo com a psicóloga Ana Regina Noto, ter um propósito aumenta o nível de motivação pessoal e influencia as decisões diante dos desafios da vida. “Quando uma pessoa tem clareza das metas a serem alcançadas, ainda que de forma inconsciente, tende a buscar coerência entre suas atitudes e seus valores, alinhando buscas e intenções”, observa. Neste processo, o propósito também funciona como um fator organizador do comportamento, ajudando a sustentar escolhas mais consistentes, manter o foco diante de situações de incerteza e desenvolver uma perspectiva mais orientada para o futuro.
Impactos na produtividade
No contexto profissional, a sociedade contemporânea é marcada por um ideal neoliberal que valoriza fortemente a individualidade em detrimento da cooperação e do bem comum. “Nesse cenário, o propósito de vida frequentemente se associa ao sucesso, ou seja, à ascensão social, ao acúmulo de bens, status e reconhecimento baseado no mérito individual, reforçando a figura do ‘vencedor’ como ideal”, esclarece a professora Ana Paula Todaro. Esse conjunto de valores influencia escolhas, expectativas e formas de inserção no trabalho, estimulando a competitividade e o desempenho. Paralelamente, a flexibilidade se torna uma exigência constante.
Ainda assim, o propósito também pode estar relacionado a maiores níveis de engajamento e comprometimento, uma vez que o trabalho passa a ser percebido não apenas como obrigação, mas como atividade dotada de significado. “Nesse sentido, favorece a motivação intrínseca, a autonomia na tomada de decisões e a disposição para enfrentar desafios e transformar dificuldades em aprendizado”, analisa a psicóloga Ana Regina Noto. Além disso, pessoas com mais senso de propósito tendem a apresentar maior criatividade na resolução de problemas e menor propensão ao esgotamento ocupacional, na medida em que conseguem estabelecer maior coerência entre atividades profissionais e valores pessoais.

