O câncer de mama continua sendo a neoplasia mais diagnosticada entre as mulheres em todo o mundo. Apesar dos avanços terapêuticos, a resistência aos tratamentos ainda representa um dos principais desafios para médicos e pacientes. Recentemente, uma revisão científica apontou que a interação entre a microbiota intestinal e a epigenética pode influenciar a evolução da doença e abrir novas possibilidades terapêuticas.
De acordo com os achados, tanto a microbiota intestinal quanto os microrganismos presentes no próprio tecido tumoral podem interferir no comportamento das células cancerígenas. “Isso ocorre por diferentes mecanismos, incluindo a produção de metabólitos capazes de modificar processos epigenéticos relacionados ao crescimento tumoral, à disseminação da doença e à resistência terapêutica”, destacam os autores.
Entre as substâncias estudadas estão os ácidos graxos de cadeia curta, produzidos por bactérias intestinais durante a fermentação de fibras alimentares. “O butirato, por exemplo, tem sido associado à regulação da expressão gênica e à indução da morte de células tumorais”, observam os autores. Além disso, pesquisas recentes mostram que pacientes com câncer de mama apresentam diferenças importantes na composição da microbiota em comparação com indivíduos sem a doença. Alterações na diversidade bacteriana e redução de microrganismos considerados benéficos podem estar relacionadas à progressão tumoral.
Obesidade, diabetes e risco aumentado
O artigo também aborda a relação entre doenças metabólicas e câncer de mama. De acordo com os autores, a obesidade e o diabetes tipo 2 promovem alterações na microbiota intestinal e nos mecanismos epigenéticos, criando um ambiente favorável ao desenvolvimento e à progressão tumoral. “Esse elo pode ajudar a explicar por que pacientes com distúrbios metabólicos frequentemente apresentam maior risco para diferentes tipos de câncer, incluindo o de mama”, comentam.
Novas possibilidades terapêuticas
Uma das perspectivas mais promissoras apontadas pelos autores é a combinação de terapias epigenéticas com intervenções direcionadas à microbiota. Entre as abordagens investigadas estão mudanças alimentares, uso de probióticos, transplante de microbiota fecal e medicamentos capazes de atuar sobre mecanismos epigenéticos específicos. “A expectativa é que essas novas possibilidades terapêuticas possam potencializar a eficácia dos tratamentos convencionais e reduzir a resistência tumoral”, avaliam.
Medicina de precisão
Embora os resultados ainda dependam de mais estudos clínicos, os cientistas avaliam que a compreensão das interações entre microbiota, metabolismo e epigenética pode contribuir para o desenvolvimento de terapias mais personalizadas no futuro. A próxima etapa será identificar quais perfis microbiológicos estão associados a melhores respostas terapêuticas e como podem ser modulados de forma segura.
“Essa proposta acompanha uma tendência crescente da Medicina de Precisão, que busca adaptar tratamentos às características biológicas de cada paciente”, enfatizam os autores. Neste cenário, a microbiota deixa de ser vista apenas como um conjunto de microrganismos e passa a ser considerada uma potencial aliada no enfrentamento do câncer de mama. O artigo ‘Targeting microbiome-driven epigenetic modifications: a new frontier in breast cancer treatment’ foi publicado em janeiro de 2026 na revista Clinical Epigenetics – doi: 10.1186/s13148-025-02046-0.

