A adolescência é considerada um período decisivo para alcançar melhores resultados clínicos, prevenir a intensificação dos sintomas e diminuir a probabilidade de os dois transtornos se tornarem crônicos. Embora existam tratamentos eficazes para ambas as condições separadamente, poucos tratamentos foram desenvolvidos para os quadros de comorbidade. Por isso, em colaboração com o McLean Hospital, nos Estados Unidos, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram uma nova estratégia terapêutica para tratar adolescentes que apresentam Transtorno de Personalidade Borderline associado a transtornos alimentares (TA).
A nova proposta terapêutica é focada especificamente no adolescente por compreender que ambos os distúrbios, nesta faixa etária, têm sobreposições sintomáticas. Isso se explica porque ambos compartilham fatores de risco e características clínicas semelhantes, como histórico de trauma, relações instáveis, emoções intensas e difíceis de controlar, autoimagem instável, baixa autoestima e comportamentos autodestrutivos, por exemplo, cortes ou vômitos autoinduzidos. “Trata-se de um manejo multidisciplinar com 12 diferentes componentes como acolhimento, psicoeducação, normalização do padrão alimentar, manejo de comportamentos autodestrutivos, participação ativa da família e uso de medicação, quando necessário”, pontua o médico psiquiatra Marcos Signoretti Croci, codiretor do Ambulatório para o Desenvolvimento dos Relacionamentos e Emoções (ADRE) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HC-FMUSP).
O tratamento dura média de seis meses e, apesar de não haver cura definitiva, a maioria dos pacientes recebe alta após esse período com remissão significativa de sintomas e redução de comportamentos de risco. O ADRE trata adolescentes de 13 a 17 anos em risco para desenvolver ou que já têm Borderline, evitando que o quadro se torne mais grave, crônico e resistente. A abordagem foi adaptada do modelo General Psychiatric Management, originalmente voltado para adultos com este transtorno e que recebeu a denominação Bom Manejo Clínico para Adolescentes com Transtorno de Personalidade Borderline e Transtornos Alimentares (GPM-A).
Para os adolescentes que também apresentam o TA, o tratamento pode ser adaptado para o GPM-AED (Good Psychiatric Managment for Adolescents with BPD and Eating Disorder Symptoms). “Como os tratamentos especializados são insuficientes para atender às demandas de saúde pública, esperamos que o método preencha essa lacuna, permitindo que clínicos não especialistas estruturem um tratamento para ajudar adolescentes”, reforça o psiquiatra Marcos Signoretti Croci. Para propagar o trabalho, o ADRE promove workshops voltados para médicos, psicólogos, enfermeiros e outros profissionais de saúde mental. A terapêutica foi descrita no artigo ‘General Psychiatric Management for Adolescents With Borderline Personality Disorder and Eating Disorders’, publicado no American Journal of Psychotherapy.

