Um trabalho realizado no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) sugere uma nova estrutura clínica de cinco etapas para a prevenção do suicídio. O estudo foi inspirado na psicoterapia existencial e em pesquisas empíricas recentes. A proposta integra princípios centrados no sentido da vida com estratégias contemporâneas baseadas em evidências.
De acordo com o psicólogo Élison Santos, autor da pesquisa, a estrutura enfatiza relações terapêuticas autênticas, identificação de valores essenciais e responsabilidades pessoais. “Além disso, aborda a expansão de perspectivas, o gerenciamento da tensão existencial e a redescoberta de propósito e autonomia”, detalha. A pesquisa foi realizada durante seu doutorado em Psicologia Clínica.
Cada etapa foi concebida para guiar os profissionais clínicos por um processo compassivo, estruturado e empiricamente fundamentado. A proposta é auxiliar os pacientes a redescobrirem seu senso de significado e propósito, promovendo uma renovada vontade de viver. A estrutura proposta pelo psicólogo alinha-se a modelos contemporâneos.
Entre os exemplos estão o Modelo Integrado Motivacional-Volitivo e a Teoria dos Três Passos. Ambos destacam fatores como aprisionamento, desesperança e desconexão como principais impulsionadores da ideação suicida. “Não há uma etapa mais importante que outra. É preciso ter muito cuidado para ajudar de forma delicada e assertiva, para perceber que existe um sentido, ou ajudar o paciente a encontrar um”, destaca o psicólogo. O artigo ‘A Novel five-step clinical framework for suicide prevention’ foi publicado pela revista Journal of Contemporary Psychotherapy em 2025.
Passos
- A primeira etapa é chamada de Recepção Diferenciada, Promovendo Conexão e Afirmando a Dignidade. O objetivo é estabelecer uma relação terapêutica empática e sem julgamentos para ajudar o paciente a se sentir ouvido e valorizado.
- A segunda etapa é Conectando-se com Valores e Responsabilidades Essenciais. A proposta visa identificar o que é mais importante para o paciente e usar as responsabilidades pessoais para criar razões para viver.
- A terceira etapa é Expandindo Perspectivas e Possibilidades. A meta é desafiar a visão de mundo estreita e limitada, frequentemente mantida por pessoas em crise, e explorar soluções alternativas para a dor.
- A quarta etapa é Navegando pelas Tensões Existenciais e Explorando a Ambivalência Entre o Desejo de Viver e o Desejo de Morrer. Aqui, o psicólogo aborda os sentimentos profundos de inutilidade e promove um equilíbrio entre o desejo de morrer e o desejo de viver.
- A quinta etapa é Redescobrindo Propósito e Autonomia. O objetivo é apoiar o paciente a tomar medidas ativas para recuperar sua vida, seu significado e seu senso de direção.
Sentido para a vida
De acordo com o autor, ao combinar insights teóricos com ferramentas práticas, a estrutura oferece aos profissionais clínicos uma abordagem flexível e abrangente. Desta forma, pode complementar os modelos existentes de prevenção do suicídio. Além disso, a integração de preocupações existenciais com estratégias baseadas em evidências promete uma abordagem mais holística e sustentável para a prevenção do suicídio. “São necessários mais estudos empíricos por meio de ensaios clínicos randomizados para avaliar a eficácia em diversas populações”, sugere o psicólogo.
A continuidade da pesquisa está sendo feita na Catholic University of America, em Washington DC, Estados Unidos. O psicólogo Élison Santos faz parte do Suicide Prevention Lab, coordenando um grupo de doutorandos e mestrandos sob orientação do professor doutor David Jobes. “Estamos investigando a presença de componentes existenciais nos formulários de Status de Suicídio para que o nosso modelo, o M-5, seja implantado no Collaborative Assessment and Management Suicidality (CAMS)”, completa. Esse modelo é uma das ferramentas mais utilizadas no mundo para avaliação de risco de suicídio.

