Um grupo de pesquisa do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveu um estudo para avaliar a sepse abdominal, especialmente relacionada à peritonite – uma das principais causas de sepse grave e que ainda apresenta altas taxas de mortalidade no mundo. Experimentalmente, a peritonite é um modelo muito relevante para investigar a interação entre infecção, resposta inflamatória sistêmica e alterações metabólicas. A revisão científica foi coordenada pela imunologista Ana Carolina Oliveira, professora associada do Laboratório de Imunologia Molecular e Celular (LIMC) e coordenadora de Pós-graduação em Ciências Biológicas – Biofísica da Instituição, cujo foco de pesquisa é investigar o papel da fibra da dieta e de seus metabólitos em doenças infecciosas.
“O estudo com a sepse abdominal ofereceu um cenário particularmente interessante, uma vez que envolve diretamente o intestino, a microbiota e a integridade da barreira intestinal. Esses fatores influenciam fortemente a progressão da inflamação sistêmica”, resume. Portanto, estudar esse contexto permitiu entender melhor como metabólitos derivados da dieta podem modular a resposta imune e, possivelmente, contribuir para novas estratégias terapêuticas adjuvantes aos antibióticos. Na revisão, os pesquisadores buscaram discutir como o uso de antibióticos e a disbiose da microbiota intestinal podem afetar o curso da sepse, assim como promover o potencial terapêutico adjuvante desse eixo em pacientes em estado crítico. De acordo com a pesquisadora, essa regulação ocorre, principalmente, por meio de metabólitos e da modulação local e sistêmica da função de células imunes.
“Compostos como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), que são justamente o alvo da minha pesquisa, conseguem alcançar a corrente sanguínea e atuar em órgãos distantes como pulmão, fígado e medula óssea. Esses sinais modulam a diferenciação e a função de células imunes, como macrófagos, neutrófilos e linfócitos T, influenciando tanto a intensidade quanto o perfil da resposta inflamatória”, afirma. Além disso, a microbiota interfere na hematopoiese e no ‘treinamento’ da imunidade inata, alterando a forma como o organismo responde a infecções sistêmicas. Segundo a cientista, não apenas os AGCC, mas também derivados do triptofano e componentes bacterianos circulantes podem fazer esse papel. Portanto, mesmo sendo localizada no intestino, a microbiota exerce um papel sistêmico importante na regulação da imunidade e na progressão de doenças inflamatórias e infecciosas, como a sepse.

