Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de transplantes de órgãos do mundo, ultrapassando a marca de 30 mil transplantes por ano. Além de órgãos sólidos e tecidos como córnea e medula óssea, também é possível doar tecidos musculoesqueléticos como ossos, tendões, cartilagens e ligamentos. Esses tecidos são fundamentais para procedimentos ortopédicos e reconstrutivos, beneficiando pessoas que sofreram acidentes graves, desenvolveram câncer ósseo ou vivem com doenças degenerativas. A reconstrução das áreas lesionadas, por meio destes tecidos, contribui para o retorno da função osteoarticular ou mastigatória dos pacientes, melhorando a qualidade de vida.
Os tecidos musculoesqueléticos são estruturas do corpo humano que desempenham funções importantes na sustentação, no movimento e na proteção dos órgãos. “O tecido musculoesquelético doado atua como um ‘andaime’ para que as células do receptor possam povoar o novo tecido, permitindo a regeneração óssea”, explica o biólogo Luiz Henrique de Freitas Filho, do Banco de Multitecidos Humanos do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (HC-Unicamp), regulado pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT).
Cada doador pode ajudar, em média, 30 pessoas. No entanto, pela baixa frequência, a doação de tecidos musculoesqueléticos não faz parte das estatísticas e não tem números oficiais. Assim, cada banco de tecido faz a própria contabilidade. Por exemplo, o Banco de Tecidos do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), órgão da administração direta do Ministério da Saúde, realiza cerca de 60 captações por ano.
“Atualmente, não conseguimos atender à demanda de alguns tecidos de forma imediata, embora já tenha melhorado. Há 10 anos, 60 doadores por ano seria uma boa estatística, mas hoje não é mais porque a demanda aumentou com a ampliação dos transplantes no País, que antes ficava em grandes centros dos estados do Sul e Sudeste”, pontua o ortopedista Rafael Prinz, chefe do Banco de Tecidos do INTO. Já o Banco de Multitecidos Humanos do HC-Unicamp realizou apenas cinco captações no último ano.
De acordo com os especialistas, a falta de tecidos nos bancos é reflexo do desconhecimento geral da população sobre a doação de tecidos musculoesqueléticos e como podem ser utilizados, elevando a negação da família quando abordada sobre o processo. Além disso, a preocupação com a estética do ente falecido é recorrente. No entanto, todo espaço é reconstruído com material biodegradável, mantendo o aspecto do corpo e, em nenhuma hipótese, são retirados ossos da face do doador.
Os tecidos são disponibilizados gratuitamente e só podem ser utilizados por hospitais e profissionais cadastrados pelo SNT. Além disso, apenas médicos e dentistas responsáveis pelo paciente podem solicitar enxertos ósseos e tecidos. De acordo com o ortopedista Rafael Prinz, para que o trabalho continue é preciso ampliar o acesso a transplantes para mais hospitais. “É uma missão do INTO, por meio da doação, atender os pacientes onde estiverem para diminuir o fluxo migratório para grandes cidades. O melhor é que possam fazer esse procedimento mais perto de casa”, declara.
Os bancos de tecidos também fornecem material para estudos científicos. As pesquisas estão focadas, por exemplo, no aumento do tempo de conservação dos tecidos e no desenvolvimento de técnicas de associação entre diferentes tipos de tecidos para acelerar a consolidação óssea. “Estamos trabalhando para validar um protocolo de captação de tecidos musculoesqueléticos em doadores com parada cardiorrespiratória, o que pode ampliar significativamente a oferta”, explica o biólogo do Banco de Multitecidos Humanos do HC-Unicamp, Luiz Henrique de Freitas Filho.
Além disso, há um trabalho para a validação do processo de liofilização do osso, permitindo o armazenamento em temperatura ambiente e reduzindo os custos com refrigeração. A unidade também pretende expandir a atuação para outros tecidos como córnea, esclera, pele e membrana amniótica (recentemente aprovada pelo Ministério da Saúde para uso terapêutico em lesões de pele).
Legislação – Paralelamente, a legislação brasileira busca equilibrar a ética, a segurança e a viabilidade dos transplantes. No entanto, há desafios como a exigência do consentimento familiar para a doação, mesmo que o indivíduo tenha manifestado desejo de doar em vida. Embora tenha um papel ético importante ao envolver a família, essa exigência pode ser uma barreira diante das altas taxas de recusa familiar no Brasil. Atualmente, propostas legislativas discutem a adoção do modelo de doação presumida como ocorre na Espanha – referência mundial em doação e transplantes.
Neste sistema, todos são considerados doadores salvo manifestação contrária em vida, o que poderia transformar a lista de espera no Brasil. “Outro ponto crítico está nos altos custos estruturais e operacionais que a legislação exige para bancos de tecidos, muitas vezes incompatíveis com os valores repassados pelo SUS. Isso dificulta a ampliação do número de bancos e do serviço realizado dos que estão em pleno funcionamento”, acentua o biólogo do HC-Unicamp.

