Com a melhora da qualidade assistencial e o sucesso dos tratamentos empregados na fase aguda, muitos pacientes recebem alta hospitalar após um episódio de sepse. Entretanto, para uma parcela importante dos sobreviventes essa é apenas a primeira etapa de um longo período de reabilitação. Os especialistas afirmam que na síndrome pós-sepse – ou síndrome pós-cuidados intensivos –, o comprometimento físico, cognitivo e de saúde mental é muito prevalente, ocasionando impactos significativos na rotina, saúde e qualidade de vida. De acordo com estimativas, o risco de reinternação é elevado, com cerca de 70% dos pacientes demandando cuidados hospitalares nos primeiros 3 a 6 meses pós-alta. Complexa, a reabilitação voltada ao tratamento das sequelas transforma a vida do paciente e o cotidiano familiar ao demandar gastos e cuidados intensos.
De acordo com o médico intensivista Regis Goulart Rosa, vice-presidente do ILAS e professor do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital das Clínicas de Porto Alegre e da Faculdade de Medicina da UFRGS, fatores como comorbidades, gravidade da infecção, linha terapêutica utilizada, tempo de internação em UTI e atraso no plano de reabilitação podem influenciar o prognóstico em longo prazo. “Quanto maior a gravidade da sepse e da disfunção dos órgãos acometidos na fase aguda, maior é o risco de o paciente apresentar sequelas. Ainda que sejam fundamentais para salvar vidas, o uso de ventilação mecânica prolongada, hemodiálise e medicamentos como sedativos, antibióticos, bloqueadores neuromusculares e corticosteroides também podem contribuir para complicações futuras”, comenta. Além disso, somam-se aos riscos o fator idade (idosos são mais suscetíveis), as comorbidades e a complexidade das doenças de base.
A síndrome pós-sepse engloba um conjunto de manifestações clínicas divididas em domínios físico, cognitivo e de saúde mental, que persistem ou surgem após a alta hospitalar. “No domínio de saúde física, os pacientes podem apresentar sintomas muitas vezes incapacitantes como fraqueza muscular, astenia, fadiga, dispneia, redução da capacidade física, mobilidade ou perda de independência. Também podem ocorrer dores crônicas articulares ou musculares, infecções recorrentes e alterações sensoriais como fotofobia e disgeusia”, enumera o médico. Além disso, frequentemente surgem distúrbios de deglutição como a disfagia, que contribui para quadros de desnutrição, e pneumonia aspirativa. No domínio cognitivo podem ocorrer problemas de memória, dificuldade de atenção e raciocínio lento, incapacidade de realizar tarefas complexas e, em casos graves, quadros de demência em idosos. Em relação à saúde mental, há ocorrência elevada de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e alterações de humor, tanto em pacientes quanto em familiares.
Ainda antes da alta, o plano de reabilitação pós-sepse foca na recuperação funcional, física e cognitiva com início imediato, se estendendo por meses ou anos caso seja necessário. “Quanto mais rápido o paciente tiver acesso a uma estratégia de reabilitação de acordo com suas necessidades, maior será a chance de recuperação e prevenção de complicações e sequelas. Caso contrário, o prognóstico pode impactar negativamente o quadro geral de saúde”, observa o vice-presidente do ILAS. Idealmente, o plano de reabilitação pós-sepse envolve equipe multidisciplinar formada por fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, fonoaudiólogos e psicólogos, que atuam para tratar isolada ou conjuntamente sintomas físicos, distúrbios cognitivos e do sono, saúde mental e suporte familiar essencial.
Apesar dos esforços, cerca de 70% dos sobreviventes são hospitalizados novamente em poucos meses, com 1/3 indo a óbito no primeiro ano pós-alta, principalmente em decorrência de novos quadros de sepse. “Não sabemos o motivo ao certo, mas esses pacientes adquirem uma imunossupressão e, consequentemente, ficam mais suscetíveis a novas infecções. A gravidade da sepse na reinfecção, a idade avançada, as comorbidades e a fragilidade do paciente são fatores determinantes para desfechos negativos”, comenta o médico. Entretanto, com tratamento intensivo boa parte das sequelas pós-sepse são reversíveis. As medidas para prevenir sequelas prolongadas e o risco de reinternação incluem mobilização precoce; redução de sedação, ventilação e de medicamentos que podem causar disfunção cerebral; manutenção do quadro vacinal atualizado (pneumococo, influenza, dengue, covid) e adoção de alimentação saudável. Além disso, é importante evitar ambientes aglomerados com pouca ventilação, especialmente nos primeiros meses pós-sepse, e estar atento a sinais de alerta característicos de infecções.
Acolhimento familiar
Peça-chave no processo de reabilitação na síndrome pós-sepse, a família atua como agente modificador, suporte emocional e auxiliar na recuperação integral do paciente. Entretanto, essa função pode ser exaustiva, já que frequentemente os cuidadores negligenciam as próprias necessidades. As principais queixas incluem quadros de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, distúrbios do sono e luto patológico (decorrente do sofrimento presenciado durante a hospitalização), além de uma sobrecarga física, pois pacientes com incapacidades graves demandam auxílio para locomoção, higiene e disfunção cognitiva. “O cuidado com quem cuida também deve integrar o processo de reabilitação. Portanto, é fundamental dividir tarefas, ter momentos de descanso, dormir bem e buscar apoio familiar ou especializado para evitar o esgotamento físico e emocional”, orienta o médico Regis Goulart Rosa.

