A ansiedade é uma condição que afeta milhões de pessoas ao redor do mundo, podendo levar a prejuízos importantes na qualidade de vida e na saúde integral. O transtorno, considerado um problema de saúde pública, pode se manifestar em qualquer fase da vida – inclusive na infância. Entre os sintomas que merecem atenção estão medos exagerados, preocupações constantes e dificuldades para lidar com situações cotidianas simples. Identificar precocemente a ansiedade infantil é fundamental, pois, sem o tratamento adequado, a condição pode comprometer o desenvolvimento emocional, social e escolar.
Assim como em outras fases da vida, a ansiedade infantil é considerada um importante problema de saúde pública. De acordo com levantamento do Ministério da Saúde, entre 2013 e 2023 os atendimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) relacionados à ansiedade aumentaram 1.575% entre crianças de 10 a 14 anos. Já com os adolescentes o número foi ainda maior, ficando em 4.423%.
A alta prevalência pode estar associada a pressão escolar, problemas familiares, excesso de estímulos digitais e rotina acelerada. Como em muitos casos a criança não consegue expressar em palavras o que sente, é fundamental que pais, cuidadores e professores estejam atentos aos sinais de alerta do transtorno, que tem surgido em idades cada vez mais precoces.
Impacto no desenvolvimento
De acordo com o neurocirurgião e especialista em desenvolvimento infantil André Ceballos, diretor técnico do Hospital São Francisco (SP), em algum momento da infância a criança vai sentir algum tipo de ansiedade. “É normal que a criança sinta medo ou insegurança em determinadas situações, como no primeiro dia de aula ou ao se separar dos pais por algumas horas”, comenta. No entanto, quando essas emoções se tornam frequentes e intensas, interferindo na rotina, causando sofrimento e prejudicando o bem-estar emocional, é preciso acender o sinal de alerta.
Os sintomas de ansiedade se diferem de acordo com a idade, principalmente porque a capacidade de verbalizar e compreender emoções se desenvolve ao longo do crescimento. O neurocirurgião comenta que, até os três anos de idade, por exemplo, a criança ainda não consegue verbalizar suas emoções com clareza. Por isso, o corpo fala mais alto.
Distúrbios de sono, choro sem causa aparente e recusa de se alimentar com frequência podem indicar desconforto emocional. “É comum que, nesta fase, o bebê estranhe pessoas ou ambientes. Entretanto, crises de choro prolongadas, insônia persistente e regressões no desenvolvimento, como voltar a fazer xixi na cama, são indicativos importantes que demandam cuidado”, destaca.
Entre os 4 e 6 anos, o medo – seja do escuro ou de ficar longe dos pais – começa a ganhar forma e, até certo ponto, é normal. Entretanto, se a criança se recusa a ir para a escola, passear e dormir sozinha, se tem crises de pânico ou dores físicas antes de atividades sociais, pode ser a ansiedade se manifestando. Já no período entre 7 e 12 anos, a cobrança interna e a comparação com os colegas entram em cena.
Nesta fase, preocupações com desempenho escolar, amizades e até com o futuro são comuns. “Se culpar demais por erros pequenos, evitar situações novas ou ter pensamentos frequentes sobre o que outras pessoas pensam são sinais de que algo não está bem”, aponta. Nestes casos, os pais devem buscar orientação, pois pode ser um indício de ansiedade generalizada.
O médico acentua que, para oferecer um ambiente seguro e acolhedor, no qual a criança ou o adolescente se sinta à vontade para expressar seus sentimentos, pais, cuidadores e professores precisam estar atentos a mudanças comportamentais, sinais físicos e sintomas emocionais. “O melhor caminho é estabelecer uma escuta respeitosa em um ambiente acolhedor, que envolva a família e um especialista em saúde mental infantil”, orienta.
Sinais de alerta
- Alterações no sono – Dificuldade para dormir, pesadelos ou despertares noturnos constantes podem ser indicativos de uma mente agitada. O sono é um parâmetro importante do estado emocional da criança e o comportamento durante o repouso pode ser um indicativo não verbal de que algo está errado.
- Dores físicas sem causa aparente – Dores de cabeça, de barriga ou náuseas recorrentes, sem explicação médica, podem ser sintomas somáticos da ansiedade. Isso ocorre porque o corpo da criança pode manifestar o que ela ainda não consegue expressar em palavras. Portanto, a recorrência desses episódios deve ser avaliada por um médico.
- Isolamento ou irritabilidade – Crianças ansiosas podem evitar situações sociais, perder o interesse por brincadeiras ou ficar mais irritadas do que o habitual. “Muitas vezes, essa mudança de comportamento é confundida com birra ou desobediência, mas pode ser um pedido de ajuda”, observa o especialista.
- Medos excessivos e persistentes – Medo exagerado de ficar longe dos pais, de escuro, de ir à escola ou de interagir com outras crianças são comuns. Contudo, quando começam a limitar a rotina da criança precisam de cuidado especializado.
- Preocupações exageradas com o futuro – O medo de não fazer amigos ou de algo ruim acontecer podem tirar a paz da criança. “Esse tipo de pensamento constante pode comprometer a autoestima, o desempenho escolar e o desenvolvimento emocional”, acentua o médico.

