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Falência de múltiplos órgãos

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Sepse pode ser devastadora em todas as idades

Escrito por: Fernanda Ortiz

A sepse é uma síndrome clínica complexa caracterizada por uma disfunção orgânica ameaçadora à vida, decorrente de uma resposta desregulada do corpo a uma infecção. Seja causada por bactérias, vírus ou fungos, essa condição pode levar à falência de múltiplos órgãos. Definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como prioridade e um dos maiores desafios de saúde ­pública global, a sepse é a principal causa de morte não cardiológica em unidades de terapia intensiva (UTI) no ­mundo, com cerca de 11 milhões de óbitos todos os anos. Um estudo epidemio­ló­gico de sepse ­pediátrica, ­coorde­na­do pelo  ­Instituto ­Latino-Americano de Sep­se (ILAS)  e publica­do em 2021 no ­Lancet Child and ­Adoles­cent Health Journal (SPREAD PED), mostrou uma mortalidade de aproximadamente 20% em pacientes internados com sepse nas UTIs pediátricas estudadas. Desafiadora e grave, a identificação precoce e o tratamento otimizado na primeira hora são fatores ­determinantes para o sucesso em todas as etapas do cuidado ao paciente, tanto na fase aguda – para o controle da resposta inflamatória e a redução da mortalidade –, quanto no processo de reabilitação, para prevenir o risco de sequelas físicas, cognitivas e emocionais.

Caracterizada como uma ­repercussão ou manifestação sistêmica de uma infecção, a ocorrência de sepse está intrinsecamente relacionada à resposta do próprio hospedeiro, e não apenas ao agente infeccioso. De acordo com o médico infectologista Reinaldo Salomão, professor titular da Disciplina de Infectologia e chefe do Laboratório de Pesquisa em Sepse (LPS) do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), o reconhecimento de patógenos desencadeia a libera­ção massiva de citocinas pró-inflamatórias e anti-inflamatórias – chamada de ‘tempestade de citocinas’ – em resposta à infecção, gerando desequilíbrio e, consequentemente, lesões em tecidos e falhas em órgãos, mesmo que distantes do foco original. “Essa inflamação sistêmica e os danos aos tecidos levam à vasodilatação, hipotensão e má distribuição do sangue (hipoperfusão tecidual), prejudicando a oxigenação celular em todo o corpo”, acentua. A forma mais grave da sepse é o choque séptico, caracterizado pela oferta insuficiente de oxigênio e disfunção circulatória severa que leva à falência de múltiplos órgãos e a um alto risco de morte.

A principal forma de aquisição (80% dos casos) é a sepse adquirida na comunidade (SAC), definida pelas infecções que se originam fora do ambiente hospitalar ou que se manifestam dentro das primeiras 48 horas após a internação. “A maioria das infecções que levam a esse quadro é bacteriana, embora fungos e vírus também possam ser agentes causadores”, afirma a médica intensivista Flavia Machado, professora e chefe do setor de Terapia Intensiva da Disciplina de Medicina Intensiva do Hospital Universitário da EPM-­Unifesp e coordenadora do ILAS. Os principais focos incluem infecções respiratórias, sendo a pneumonia a mais comum; do trato urinário, como a pielonefrite; gastrointestinais, a exemplo da apendicite e diverticulite; e infecções de pele, como celulite bacteriana e feridas infeccionadas. Em contrapartida, a sepse hospitalar (ou nosocomial) é uma infecção adquirida 48 horas ou mais após a admissão ­hospitalar. Ao apresentar maior risco de mortalidade que a comu­ni­tária, geralmente é a via final de muitas doenças que não são inicialmente infecciosas, assim como de procedimentos invasivos como cateteres, ventilação mecânica ou cirurgias.

Sinais de alerta

Os sintomas da sepse surgem rapidamente após a infecção inicial e podem incluir disfunções ­orgânicas como respiração rápida e superficial, hipotensão, alte­rações na pele (fria, pálida ou azulada) e redução da urina. Além disso, podem surgir disfunções neurológi­cas como confusão mental (delírio), rebaixamento do nível de consciência, agitação ou sonolência.

O infectologista Reinaldo Salomão, que é diretor científico do ILAS, lembra que qualquer pessoa pode desenvolver a sepse. Entretanto, os grupos de maior risco são os extremos de idade, como idosos acima de 65 anos e bebês com menos de um ano e prematuros, assim como gestantes, pacientes imunossuprimidos ­(câncer, transplantados, HIV, doenças autoimunes ou que façam uso de corticoides), portadores de doenças crônicas (diabetes, insuficiência cardíaca, renal ou hepática) e pacientes hospitalizados e submetidos a procedimentos invasivos.

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