Um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais, avaliou os efeitos moduladores da administração da bactéria probiótica Lactococcus lactis (LMG 27352) nas variáveis de risco cardiometabólico em indivíduos com obesidade. Os pesquisadores selecionaram 52 adultos obesos, frequentadores do Centro de Especialidades Médicas (CEM) do município de Três Corações. Em comum, os pacientes apresentavam circunferência da cintura elevada e algum fator de risco cardiometabólico associado à obesidade, como pressão arterial, triglicerídeos e glicemia elevados. O ensaio clínico randomizado, prospectivo, triplo-cego e controlado por placebo teve uma intervenção de 90 dias. Embora os resultados não tenham mostrado efeitos significativos da suplementação sobre variáveis antropométricas e de composição corporal, a variável triglicérides apresentou alteração após a suplementação com o probiótico.
De acordo com a nutricionista e doutora em Imunologia Andrezza Fernanda Santiago, docente do Departamento de Nutrição da UFLA e coordenadora da pesquisa, um dos vieses do estudo foi ter sido iniciado um pouco antes da pandemia de covid-19, quando as pessoas ficaram muito trancadas em casa e mudaram o padrão de alimentação. Além disso, é preciso considerar que o benefício do probiótico é cepa-específico, o que significa que nem todos os probióticos vão ter o mesmo efeito. “Utilizamos uma cepa muito usada para fazer fermentados, iogurte e queijos, mas não achamos o resultado esperado, embora algumas cepas tenham realmente se mostrado muito promissoras para reduzir a pressão arterial e melhorar o perfil clínico, principalmente em relação a triglicerídeos. Vimos uma tendência a essa diminuição, mas não uma diminuição direta”, ressalta.
O próximo estudo do grupo, já em andamento, vai envolver prebióticos. Segundo a docente, essa classe é muito importante quando se trata do eixo intestino-coração. “Os prebióticos são fermentados pelos microrganismos na microbiota intestinal e ajudam a definir essa população, ou seja, quem vai crescer mais e quem vai crescer menos. Quando ingerimos prebióticos, conseguimos modular melhor o perfil da microbiota, favorecendo o crescimento daquelas bactérias comensais ou que produzem metabólitos anti-inflamatórios e melhoram a saúde cardiovascular”, define. O estudo, com 42 pacientes, visa comprovar que uma das grandes causas de risco cardiovascular é a permeabilidade intestinal. E os pesquisadores também pretendem identificar alguns marcadores que poderão ser úteis para mostrar que existe uma permeabilidade intestinal aumentada nesses pacientes.
“Essa permeabilidade aumentada favorece o trânsito de compostos da dieta, como ácidos graxos saturados, ou mesmo da própria microbiota, que vão sinalizar uma inflamação que acaba sendo deletéria, porque é crônica e contínua. E, por ser baixa, não é uma inflamação detectável facilmente”, acrescenta. Essa inflamação de baixo grau associada pode induzir a disfunção endotelial, aumentando a permeabilidade da barreira íntima vascular. Esse processo facilita a entrada, retenção e subsequente oxidação do LDL-colesterol no espaço subendotelial, iniciando a formação da placa aterosclerótica. A professora Andrezza Fernanda Santiago afirma, ainda, que quando uma pessoa tem resistência insulínica – que pode começar com a inflamação gerada pela perda de integridade da barreira intestinal –, a insulina em excesso estimula o fígado e o tecido de gordura a produzirem mais angiotensinogênio, uma proteína que dá origem à Angiotensina II. Esse hormônio ativo sinaliza para os rins reabsorverem mais água e sódio, elevando a pressão sanguínea. “Com o tempo, esse processo também estimula a formação de fibrose no tecido cardíaco, tornando o coração mais rígido e hipertrofiado. Trata-se de uma complexa rede de eventos cardiovasculares que pode ter sua origem na saúde do intestino”, argumenta.
Alimentação saudável
Segundo a professora, qualquer suplementação com probióticos ou prebióticos vai depender da dieta alimentar de cada indivíduo para obter o efeito benéfico. “Mostramos nesse artigo que, sem uma dieta adequada, só o probiótico não é suficiente. A dieta saudável é a base e o probiótico seria ‘a cereja do bolo’. Portanto, sem uma dieta que sustente essa microbiota, o probiótico não conseguirá colonizar de forma eficaz nem manter-se no ambiente intestinal. Além disso, é fundamental inserir na dieta alimentos ricos em fibras e polifenóis, como os presentes no azeite, bem como antioxidantes de frutas e verduras. Esses compostos atuam como prebióticos, alimentando seletivamente cepas benéficas e modulando a composição microbiana intestinal através da produção de ácidos graxos de cadeia curta”, acentua. •

