O aumento da prevalência da obesidade, o envelhecimento da população, o sedentarismo e a dieta pouco saudável são considerados fatores relacionados à maior incidência e prevalência de diabetes mellitus tipo 2 no mundo. As projeções sugerem que, até 2030, 643 milhões de pessoas terão a doença, com número chegando a 783 milhões em 2045 em termos globais. O diabetes é um fator de risco importante para a doença cardiovascular porque a glicose elevada lesiona os vasos sanguíneos e acelera a aterosclerose.
Além disso, o excesso de peso leva à disfunção endotelial devido à formação de produtos metabólicos derivados de lipídios, hormônios e citocinas pró-inflamatórias. As alterações na microbiota intestinal desempenham um papel de destaque na fisiopatologia da obesidade e de doenças metabólicas, mas os mecanismos envolvidos ainda não foram totalmente descritos. Desta forma, a manipulação da microbiota se tornou uma possibilidade para intervenções, com potencial papel adjuvante no tratamento do diabetes e da obesidade.
Para investigar a hipótese, uma pesquisa desenvolvida no ambulatório de Cardiologia da EPM-Unifesp avaliou os efeitos do consumo da biomassa de banana verde em parâmetros do metabolismo glicêmico e nas mudanças na composição da microbiota intestinal em pacientes pré-diabéticos ou diabéticos. A biomassa de banana verde é rica em amido resistente e fibras e, por isso, é considerada efetiva na diminuição dos fatores de risco associados ao diabetes mellitus – como parâmetros antropométricos e controle glicêmico. A intervenção envolveu pacientes que não tomavam medicamento antiglicemiante ou tinham uma dose estável de medicamentos para tratamento da condição. Para o experimento, os pacientes consumiram 45 gramas de biomassa da banana verde por seis meses, com objetivo de aumentar a quantidade de prebióticos na dieta e, consequentemente, melhorar o perfil da microbiota.
Neste experimento, participaram 173 pacientes do protocolo BATTLE-AMI, randomizados em grupo intervenção – que recebeu orientação nutricional e 40g/dia (4,5g de amido resistente) de biomassa de banana verde – ou grupo controle, que recebeu apenas orientação nutricional. Os pesquisadores sequenciaram 355 amostras de fezes por análise metagenômica. Passados seis meses do estudo, tanto o grupo de pacientes pré-diabéticos como o grupo de indivíduos diabéticos que consumiu a biomassa de banana verde teve diminuição significativa dos níveis de hemoglobina glicada.
Para os pesquisadores, isso mostra que uma intervenção na dieta alterando positivamente a microbiota intestinal pode melhorar o controle glicêmico e metabólico e, dessa forma, oferecer um benefício para o melhor controle da glicemia. “Na verdade, com o uso dos prebióticos acabamos favorecendo que algumas bactérias intestinais produzam substâncias que são absorvidas e têm um papel na melhor sensibilidade à insulina, principalmente os metabólitos dos ácidos graxos de cadeia curta, que também têm um efeito anti-inflamatório. Então, uma dieta saudável acaba contribuindo para a proteção cardiovascular”, resume o professor Francisco Helfenstein Fonseca, orientador do estudo.
Nova fronteira
O consumo de biomassa de banana verde também mostrou modificações expressivas e favoráveis na relação dos filos Firmicutes/Bacteroidetes, especialmente entre pacientes com pré-diabetes. A mudança foi sentida particularmente pelo maior aumento do filo Bacteroidetes, ao lado de modificações na composição de gênero e espécies de várias bactérias. O grupo da Cardiologia da EPM-Unifesp tem estudado amplamente a microbiota, inclusive em cooperação com o professor doutor Mário Saad, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O objetivo é avaliar a composição da microbiota intestinal nos pacientes infartados e a evolução em longo prazo. “Temos dados que ainda estão em análise, mas sugerem que em pacientes com pré-diabetes ou diabetes existam diferenças na composição da microbiota intestinal. Então, é uma nova fronteira que está se descortinando na compreensão de como as bactérias, que são nossos hóspedes, acabam influenciando a saúde cardiovascular”, ressalta o professor Francisco Helfenstein Fonseca.

