O herpes zoster é uma doença infecciosa causada pela reativação do vírus varicela-zoster (VVZ) – o mesmo da catapora. O vírus pode permanecer em estado de latência ou inativo nos gânglios nervosos (espinhais ou cranianos) localizados na raiz dorsal posterior, ou seja, fora do sistema nervoso central, desde a primeira infecção ainda na infância. Apesar de não haver um número oficial, estimativas apontam que mais de 90% dos brasileiros acima de 20 anos de idade tenham soropositividade do vírus, e que um a cada três desenvolva a enfermidade.
Entre os principais fatores de risco estão idade (indivíduos com mais de 50 anos têm mais risco) e sistema imunológico comprometido. Com sintomas como dor intensa, formigamento, coceira e/ou queimação em um lado do corpo ou rosto, a infecção por herpes zoster evolui para erupções cutâneas com bolhas cheias de líquido, tornando a região afetada muito sensível ao toque. Pelo risco de complicações que podem comprometer seriamente a qualidade de vida, a vacinação é considerada a ferramenta mais eficaz de prevenção contra a doença.
De acordo com o virologista Rafael Brandão Varella, professor associado de Virologia do Departamento de Microbiologia e Parasitologia (MIP) do Instituto Biomédico da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o passar do tempo o vírus pode ser reativado. “Seja por fatores como envelhecimento, sistema imunológico enfraquecido, estresse, doenças crônicas ou condições de imunossupressão, quando reativado o vírus se multiplica e viaja ao longo de um nervo sensitivo até a pele”, descreve.
Ao causar inflamação do gânglio da raiz sensorial, os nervos mais afetados pelo vírus varicela-zoster são os sensitivos, responsáveis por transmitir informações de toque, dor e temperatura. Entre os mais comuns estão os nervos da região torácica (intercostais); nervo trigêmeo localizado na face, que pode atingir olhos ou boca; nervos cervicais, afetando a região do pescoço; nervos lombossacrais, causando sintomas na região lombar ou nas pernas; e nervo vestibulococlear, que ocasiona lesões no nervo auditivo. “Antes do surgimento das lesões visíveis, sintomas como ardor, formigamento, coceira e dor intensa na área afetada são o sinal de alerta de que o vírus está se reativando”, aponta o virologista. Outros sintomas sistêmicos podem incluir febre, mal-estar ou inchaço dos gânglios linfáticos.
A manifestação clínica tem início com o surgimento de lesões cutâneas, descritas como vesículas (bolhas) dolorosas sobre uma base avermelhada (eritematosa), levando a um quadro inflamatório que segue o trajeto do nervo (dermatomo) afetado. As erupções unilaterais surgem gradualmente – entre dois e quatro dias – como uma mancha, evoluem para a formação de vesículas e, após duas a quatro semanas, formam crostas que, então, cicatrizam. “Por ser uma doença neurológica que acomete primariamente o sistema nervoso central, o herpes zoster causa dores intensas e até mesmo lancinantes, que podem persistir mesmo após o desaparecimento das lesões”, alerta o infectologista Diego Rodrigues Falci, médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e docente do Programa de Pós-graduação em Medicina: Ciências Médicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Antivirais eficazes
Segundo a infectologista Rosana Richtmann, médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, de São Paulo, e diretora do Comitê de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o tratamento inclui dois aspectos principais: o uso de antivirais para combater o vírus e analgésicos para o manejo da dor. “O aciclovir por via oral, normalmente em altas doses diárias, é o antiviral mais utilizado. Os antivirais valaciclovir e fanciclovir funcionam de forma semelhante, mas com custo mais elevado”, orienta. A recomendação é começar o manejo farmacológico até 72 horas após o início dos sintomas, e manter por sete dias consecutivos. O tratamento prolongado pode ser considerado pelo médico se, após esse período, ainda houver novas lesões.
Como a doença transcorre com neuralgia prolongada, geralmente são prescritos analgésicos de acordo com a intensidade da dor. No caso de dores leves a moderadas podem ser usados paracetamol, dipirona ou anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Já em casos de dor mais intensa pode ser necessário o uso de determinados opioides. “Todo o processo deve ser acompanhado por um infectologista, dermatologista, clínico ou neurologista, que determinará os fármacos, as dosagens e o tempo de tratamento adequado de acordo com o quadro clínico de cada paciente”, orienta a infectologista. Paralelamente, a recomendação é que o paciente adote cuidados diários como, por exemplo, realizar constantemente a higiene da pele com água e sabonete e manter as lesões cobertas enquanto estiverem ativas, para evitar infecções secundárias ou o contágio de outras pessoas.

