Muito além da genética, as doenças autoimunes podem estar ligadas ao ambiente e às bactérias que habitam o intestino. Um artigo de revisão aponta que alterações no microbioma intestinal estão associadas a desequilíbrios imunológicos e processos inflamatórios relacionados a essas doenças. Essas mudanças podem influenciar tanto o surgimento quanto a progressão das enfermidades autoimunes. Tais achados reforçam o papel da microbiota na regulação do sistema imunológico e o potencial para diagnósticos e terapias personalizadas.
Pesquisas recentes apoiadas por técnicas de sequenciamento avançado e análises metabolômicas têm identificado assinaturas microbianas associadas a diferentes condições autoimunes. De acordo com os autores, esses dados mostram que bactérias e seus metabólitos atuam diretamente na modulação da resposta imune. “Microrganismos como Faecalibacterium prausnitzii, Akkermansia muciniphila e espécies de Roseburia estão ligados à manutenção da homeostase imunológica e a efeitos anti-inflamatórios”, comentam. Em contraste, bactérias como Prevotella copri e Ruminococcus gnavus estão associadas à imunopatogênese e ao agravamento da inflamação.
Fator comum
Essas interações envolvem diferentes componentes do sistema imunológico, como células T CD4+, CD8+, células T reguladoras e células T γδ (gama-delta). Também participam células dendríticas ligadas à produção de imunoglobulina A (IgA), importante para a defesa intestinal. “O equilíbrio entre tolerância e inflamação depende da composição da microbiota e de seus metabólitos”, afirmam os cientistas.
Entre eles estão os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), que ajudam a estimular células T reguladoras e a reduzir processos inflamatórios. Nesse contexto, os autores destacam que a disbiose intestinal está presente em diferentes doenças autoimunes. “Entre os exemplos estão artrite reumatoide, diabetes mellitus, asma atópica, doença inflamatória intestinal e doença hepática gordurosa não alcoólica”, sinalizam.
Ambiente
Outro ponto de destaque é que fatores ambientais – exposição a pesticidas, metais pesados e tabagismo – podem atuar como gatilhos importantes na progressão das enfermidades autoimunes. Essas mudanças favorecem um estado de disbiose, caracterizado pela perda de bactérias benéficas e pelo aumento de microrganismos associados à inflamação. “Nesse cenário, há impacto direto na regulação do sistema imunológico, com maior ativação de respostas inflamatórias e redução de mecanismos de tolerância”, esclarecem os autores. O resultado é o favorecimento de desequilíbrios imunológicos e processos inflamatórios associados às enfermidades autoimunes.
De acordo com os autores, os achados reforçam o potencial de intervenções terapêuticas baseadas na modulação da microbiota intestinal. Ainda assim, os pesquisadores destacam que são necessários mais estudos para esclarecer as relações causais entre cepas bacterianas específicas, seus metabólitos e cada doença autoimune. “Isso deve ser confirmado antes da aplicação clínica em larga escala”, acentuam. O artigo ‘Gut microbiota mediated T cells regulation and autoimmune diseases’ foi publicado em dezembro de 2024 na revista Frontiers – doi: 10.3389/fmicb.2024.1477187.

