Apesar de evitável em 60% dos casos obstétricos, a sepse é a terceira causa de mortalidade materna no mundo e perde apenas para as doenças hipertensivas relacionadas à gestação e hemorragia puerperal. Caracterizada por uma disfunção orgânica resultante de um quadro infeccioso durante a gravidez, o parto ou até 42 dias pós-parto ou pós-aborto, a sepse materna pode ser uma condição devastadora para a saúde das mulheres. O diagnóstico precoce e o tratamento personalizado são fundamentais para melhorar a morbidade e a mortalidade materna e fetal. A principal forma de controle é a prevenção, que se baseia no acompanhamento pré-natal para identificar fatores de risco, assim como no controle rigoroso de infecções, higiene adequada, vacinação e uso profilático de antibióticos.
O desenvolvimento da sepse materna possui fatores de risco relacionados à paciente e à gestação, entre os quais idade superior a 35 anos, comorbidades preexistentes, doenças sexualmente transmissíveis, anemia, gemelaridade, procedimentos invasivos durante a gravidez e quadros infecciosos – a exemplo de pneumonia, pielonefrite, corioamnionite e endometrite. De acordo com o médico intensivista Rafael Barberena Moraes, do Programa Intrahospitalar de Combate à Sepse do Hospital das Clínicas de Porto Alegre (HCPA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um dos fatores de risco com maior impacto é a necessidade de intervenção cirúrgica, especialmente a cesariana em caráter de urgência ou com técnicas inadequadas. “Isso ocorre porque cirurgias abdominais de grande porte, a exemplo da cesárea, rompem as barreiras naturais de proteção facilitando infecções que podem evoluir para sepse no período puerperal”, explica o médico, que é professor do Programa de Pós-graduação em Pneumologia da UFRGS. Estimativas clínicas sugerem que o parto cesáreo possui de 6% a 20% mais riscos de levar a uma sepse em comparação ao parto vaginal.
Entre os sinais de alerta para sepse materna, sobretudo no final da gestação, estão febre alta ou hipotermia, taquicardia – frequentemente acima de 100 ou 110 bpm, taquipneia e falta de ar, mudança do estado mental, alterações urinárias, corrimento vaginal com odor intenso, sangramento anormal ou dor pélvica/abdominal severa. Apesar de estarem presentes em gestações normais, algumas alterações nos exames de sangue, como aumento dos leucócitos, devem ser observadas no quadro geral da paciente. “Diante de alterações clínicas importantes é fundamental que o médico pense em sepse, especialmente quando há sinais de infecção. Além de vital para a saúde da mulher e o desenvolvimento do bebê, a detecção precoce evita a mortalidade materna e fetal”, acentua o médico. Os cuidados consistem na estabilização hemodinâmica, coleta de culturas, tratamento antimicrobiano empírico e rápido controle do quadro infeccioso. A depender do foco da infecção, a antecipação do parto deve ser considerada.
O diagnóstico e a terapêutica tardios da sepse obstétrica podem causar disfunções cognitivas, sequelas imunológicas, físicas, psicológicas e neurológicas, evoluindo rapidamente para choque séptico, falência de múltiplos órgãos e morte materna. Soma-se a isso o risco de aborto, parto prematuro ou o risco de o bebê nascer com sequela cerebral. Entretanto, a implementação de medidas preventivas rigorosas pode reduzir significativamente a incidência. “A sepse materna pode ser prevenida por meio de acompanhamento pré-natal, parto e puerpério de qualidade; assim como quadro vacinal materno atualizado, controle de comorbidades pré-existentes e higiene rigorosa. Ademais, é importante fazer rastreamento, tratamento e monitoramento de infecções urinárias, vaginose ou problemas causados por Streptococcus do grupo B no pré-natal, no parto e puerpério”, orienta.

