As mudanças fisiológicas e comportamentais que ocorrem durante o envelhecimento resultam em redução da capacidade funcional, baixa qualidade de vida e aumento do risco de doenças crônicas não transmissíveis – com as doenças cardiovasculares sendo as mais prevalentes. Em contrapartida, a prática regular de exercícios é uma ferramenta bem estabelecida para combater distúrbios relacionados à idade e reduzir a incidência de enfermidades do coração e, consequentemente, a mortalidade.
No entanto, a adesão às recomendações de atividade física é muito baixa, e entre os menos aderentes estão mulheres, idosos e indivíduos de baixa renda. Por esse motivo, os programas de exercícios baseados na comunidade (PEBCs) possuem atividades elaboradas para grupos de indivíduos com condições semelhantes.
O objetivo é promover e manter a prática regular de exercícios na comunidade. A estratégia é considerada importante para superar algumas barreiras nesses grupos menos aderentes, pois exigem menos recursos financeiros, humanos e materiais do que programas individualizados.
Embora esses programas tenham melhorado a aptidão física e diversos desfechos relacionados à saúde em idosos, os efeitos no longo prazo sobre importantes fatores de risco cardiovascular, como rigidez arterial e pressão arterial (PA), são desconhecidos. Por isso, um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP) realizou uma investigação sobre os benefícios de diferentes intensidades e modalidades adotadas nesses projetos com idosos. O foco era ajudar a desenvolver recomendações específicas para a promoção da saúde.
De acordo com o professor doutor Emmanuel Gomes Ciolac, chefe do Departamento de Educação Física da Faculdade de Ciências e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Exercício Físico e Doenças Crônicas da UNESP, o estudo prospectivo, randomizado e simples-cego investigou os efeitos do PEBCs por nove meses em diferentes intensidades e modalidades. “Também avaliamos os efeitos da sua interrupção em curto prazo (três meses) sobre parâmetros antropométricos, cardiovasculares e funcionais em idosas de baixa renda”, explica.
Alta intensidade e resistência
Todas as sessões dos programas de exercícios baseados na comunidade foram realizadas duas vezes por semana, com pelo menos um dia de intervalo entre as sessões e em grupos. As sessões incluíram cinco minutos de aquecimento, 20 a 50 minutos de modalidade ou intensidade específica e cinco minutos de desaquecimento, totalizando 30 a 60 minutos por sessão. Um total de 92 mulheres idosas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, que recebiam apoio social de uma organização da sociedade civil participaram do estudo.
As participantes foram alocadas aleatoriamente em grupos para treinamento intervalado de alta intensidade combinado com treinamento de força (HIIT + TF), treinamento contínuo de intensidade moderada combinado com TF (MICT + TF) ou TF isolado. Parâmetros antropométricos, cardiovasculares e funcionais foram avaliados no início do estudo, após nove meses de treinamento e após três meses de interrupção do treinamento.
Achados
Não houve alteração em nenhum tipo e dosagem de medicamento para todas as participantes durante o acompanhamento, e foi observada redução da circunferência da cintura após a prática de HIIT + TF. O mesmo ocorreu após a prática de MICT + TF. A redução foi mantida após a interrupção do treinamento em ambos os grupos.
A pressão arterial sistólica e a velocidade da onda de pulso (VOP) reduziram apenas após a prática de HIIT + TF, e a redução da VOP foi mantida após a interrupção do treinamento. O desempenho nos testes funcionais melhoraram de forma semelhante em todos os CBEPs. Entretanto, apenas o grupo HIIT + TF manteve, pelo menos em parte, todas as melhorias funcionais após a interrupção do treinamento.
Benefícios
Aumentos na pressão arterial e na velocidade da onda de pulso relacionados à idade são fatores de risco independentes bem conhecidos para eventos cardiovasculares e mortalidade. Ao mesmo tempo, a VOP é um biomarcador confiável do envelhecimento vascular que melhora a estratificação do risco cardiovascular.
Por exemplo, para uma pessoa de 60 anos, um aumento de 1 m/s na VOP carótido-femoral está associado a um aumento de 7% nos eventos cardiovasculares. Isso corresponde a um aumento substancial no envelhecimento vascular. Em contraste, a redução da VOP tem sido associada à melhora da sobrevida.
“Nesse contexto, a atual redução da VOP encontrada após HIIT + TF sugere que essa intervenção pode reduzir tanto o risco de eventos cardiovasculares quanto o envelhecimento vascular em mulheres idosas em situação de vulnerabilidade socioeconômica”, reforça o pesquisador. Além disso, a capacidade aeróbica parece ser um fator preditor de mortalidade cardiovascular e por todas as causas mais forte do que outros fatores de risco estabelecidos.
De acordo com o pesquisador, os achados sugerem que o HIIT + TF baseado na comunidade é superior ao MICT + TF e TF para melhorar os parâmetros cardiovasculares durante o treinamento, bem como para manter as melhorias cardiovasculares e funcionais após a interrupção do treinamento. O estudo ‘Superior effect of long-term community-based high-intensity interval training on cardiovascular and functional parameters in low-income older women’ foi publicado em setembro de 2024 no European Journal of Preventive Cardiology

