O perdão é uma atitude consciente de se libertar e um caminho para abandonar a mágoa e o ressentimento, curando as feridas abertas por ofensas, erros ou traições – tanto as cometidas por outra pessoa quanto por si mesmo. Quando praticado, esse ‘remédio para a alma’ pode trazer benefícios significativos para a saúde física e mental. Achados na literatura indicam que, além de reduzir o estresse crônico, os sintomas de ansiedade e a pressão arterial, o perdão pode melhorar a qualidade do sono e o bem-estar integral. Apesar de parecer simples, o ato de perdoar verdadeiramente nem sempre é uma tarefa fácil, especialmente diante de situações muito dolorosas. Portanto, perdoar envolve muito mais do que esquecer e se baseia na compreensão de que esse é um processo íntimo, delicado e, por vezes, moroso para que o indivíduo possa liberar o peso emocional e encontrar a paz interior.
De acordo com o médico urologista e doutor em Ciências Médicas José Genilson Alves Ribeiro, vice-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (FM-UFF) e professor da Disciplina Medicina e Espiritualidade na Instituição, o perdão é muito mais do que uma simples atitude. “Perdoar é um processo de equilíbrio mental e espiritual que busca cessar um ressentimento tóxico, que geralmente vem acompanhado de outras sensações negativas”, observa. Portanto, perdoar requer habilidade, reconhecimento da dor, autoperdão, decisão consciente, compaixão, generosidade, libertação e cura. Em suma, perdoar racionalmente possibilita deixar rancores no passado e aplicar a força vital em questões que, de fato, auxiliam o bem-estar e a prosperidade pessoal.
Culturalmente, a definição de perdão possui uma conotação subjetiva e moral, ou seja, um ato de transformação que resgata e, de certa forma, torna as pessoas melhores. Entretanto, psiquicamente vai além, pois o verdadeiro perdão envolve reparação. “Podemos nos sentir culpados ou vítimas de atos, palavras ou pensamentos, mas, para perdoar, é preciso reconstruir a experiência. Esse processo ocorre por meio da retomada específica e rigorosa dos afetos que estavam envolvidos, do cuidado, das intenções, dos valores, do confronto entre versões e das consequências geradas”, avalia o psicólogo e psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). Contudo, o perdão não anula a responsabilidade das ações passadas, embora seja uma escolha o deixar de lado a carga emocional negativa e aprender com a experiência.
O cardiologista Álvaro Avezum Júnior, diretor científico do Departamento de Espiritualidade e Medicina Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DEMCA-SBC) e do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, acentua que somente o perdão verdadeiro – que muda os sentimentos em relação ao indivíduo agressor ou traidor – possibilitará o progresso para a cura emocional. “Na espiritualidade, este é um processo de libertação que beneficia mais quem perdoa do que quem é perdoado. Além disso, pode ser um catalisador para a transformação pessoal, o amor-próprio e o autoacolhimento, essenciais para perspectivas mais positivas, para a cura emocional e a reconciliação interna”, descreve. Quando concretizado, o perdão também é determinante para a evolução espiritual.
Os especialistas lembram que perdoar é uma escolha e uma lição a ser aprendida que requer cuidado e paciência. “Ainda que pareça simples, para muitas pessoas perdoar é uma decisão difícil. Falta de reconhecimento da culpa, medo da repetição, expectativas não atendidas, traumas envolvidos ou a ausência de um pedido de desculpas também podem dificultar esse processo e até mesmo causar adoecimento”, analisa o médico José Genilson Alves Ribeiro. Neste contexto, o autoperdão torna-se ainda mais difícil, pois requer reconhecer os próprios erros ou comportamentos, liberando-se da culpa e do arrependimento.
Assim, substituir sentimentos negativos por compaixão, otimismo e empatia é um dos propósitos do perdão. “Perdoar não reflete fraqueza, mas maturidade emocional e espiritual, resiliência e disposição para evoluir”, resume o médico Álvaro Avezum Júnior. Esse aprendizado visa demonstrar que o indivíduo precisa compreender o posicionamento de quem deve desculpas e trabalhar o orgulho. Ademais, é preciso considerar as consequências, especialmente quando o perdão envolve familiares, colegas de trabalho ou pessoas que impactem as interações íntimas. O cardiologista afirma que, caso nenhuma dessas atitudes seja suficiente, um profissional de saúde mental poderá oferecer um espaço seguro para explorar sentimentos e desenvolver mecanismos saudáveis para que o indivíduo possa lidar com essas emoções.

