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Estudo avalia o uso de jambu como anti-inflamatório

Escrito por: Elessandra Asevedo

O jambu é uma planta de forte presença na cultura e na biodiversidade amazônica. Com sabor marcante, proporciona uma sensação de formigamento na boca devido ao composto bioativo espilantol. Tradicional na culinária da região Norte, especialmente no Pará, o jambu está presente em pratos regionais como o tacacá e o pato no tucupi. Paralelamente, na medicina popular é utilizado pelo efeito analgésico e anestésico local, sendo administrado para alívio de dor de dente, aftas, irritação na garganta e desconfortos digestivos. Todas essas possibilidades de aplicação da planta têm despertado atenção das indústrias farmacêutica e cosmética, sendo foco de pesquisas universitárias.

A atividade biológica do extrato do jambu vem sendo relatada na literatura, transformando um saber ancestral em inovação tecnológica para a Medicina e a Cosmetologia. Além disso, tem despertado o interesse de pesquisadores brasileiros em avaliar as propriedades do espilantol, composto responsável pela sensação de formigamento e que corresponde a cerca de 20% dos derivados da planta. O foco é entender a ação anti-inflamatória para, futuramente, desenvolver medicamentos contra inflamações causadas por diversas doenças como artrite, enxaqueca e reumatismo. Embora medicamentos anti-inflamatórios disponíveis sejam potentes e amplamente utilizados atualmente no tratamento dessas inflamações, existem efeitos adversos relevantes como, por exemplo, aumento da pressão arterial, ganho de peso e osteoporose.

“As substâncias utilizadas no tratamento de inflamações são eficazes, mas existem efeitos colaterais, especialmente nos pacientes que precisam utilizá-los por um longo período de tempo”, explica o professor doutor Julio Cezar Pastre, pesquisador do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (IQ-Unicamp). Na busca por alternativas para esses medicamentos com o uso do jambu, mais especificamente do espilantol, pesquisadores da Unicamp, da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL) e da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) realizaram um estudo em busca de novos fármacos com o mesmo potencial clínico e menos efeitos colaterais.

Os pesquisadores conseguiram sintetizar 15 compostos em laboratório por meio de modificações estruturais, tendo como inspiração a estrutura química do espilantol presente no jambu. Após o planejamento e a síntese das moléculas foi avaliada a atividade biológica e, em seguida, foram explorados os mecanismos de ação dos compostos no organismo. Algumas moléculas preparadas pelo grupo tiveram resultado promissor, pois apresentaram a capacidade de inibir duas vias de inflamação – ciclooxigenase e lipoxigenase –, enquanto os medicamentos anti-inflamatórios não esteroidais utilizados atualmente têm a capacidade de inibir apenas uma via ou a outra.

“Nos ensaios ex vivo, duas das 15 substâncias estudadas tiveram atividades comparáveis com o corticosteroide dexametasona e a indometacina, um potente anti-inflamatório não esteroidal, que são fármacos de referência”, explica a farmacêutica Daniela Aparecida Chagas de Paula, professora doutora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que participou do estudo quando atuava na UNIFAL. A pesquisadora explica que, na etapa ex vivo, os novos compostos foram testados em ambiente que mimetiza ambiente vivo em amostra de sangue humano total, com citocinas, células e plasma.

“Induzimos a inflamação, colocamos as substâncias separadamente em cada amostra e verificamos a reação. Ao ter o resultado positivo, partimos para o ensaio com animal, tudo com a aprovação do Comitê de Ética”, pontua. Os camundongos tiveram a inflamação induzida e tratada com os compostos inspirados na planta. A ação anti-inflamatória foi confirmada por meio da biópsia do tecido inflamado. De acordo com o pesquisador Julio Cezar Pastre, os compostos inspirados no espilantol têm grande chance de não apresentar tantos efeitos colaterais como os medicamentos atuais.

Achados protegidos por patentes

Os responsáveis acreditam que há espaço para pensar em formulações de uso contínuo, desde que avaliadas com os devidos critérios de segurança. Atualmente, o trabalho tem nível de maturidade tecnológica TRL 4, ou seja, foi testado em laboratório, mas fora de condições reais de uso. Por isso, ainda não está disponível ao público. O trabalho é protegido por uma patente com o apoio da Agência de Inovação Inova Unicamp. Além da solicitação da proteção da invenção no Brasil pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), também tem proteção internacional da tecnologia por meio do Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes (PCT), ampliando as possibilidades de licenciamento da tecnologia por empresas e instituições de outros países. Agora, é necessário que alguma empresa se interesse na pesquisa para o desenvolvimento complementar. •

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