Entre os pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline a comorbidade pode ocorrer com anorexia nervosa, compulsão alimentar e, principalmente, bulimia por causa do impulso presente nas duas condições. “No transtorno Borderline, a impulsividade está associada a comportamentos alimentares como episódios de compulsão e purgação, enquanto na restrição alimentar da anorexia, geralmente os pacientes têm outros traços de personalidade, mais rígidos e obsessivos”, pontua a médica psiquiatra Maria Amália Pedrosa, membro da Comissão de Transtornos Alimentares da Associação Brasileira de Psiquiatria e diretora executiva da organização não governamental Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (ONG ASTRALBR). Como a comorbidade na prática clínica é cada vez mais evidente, interfere no prognóstico e no manejo clínico. Por isso, o diagnóstico correto depende da conduta dos profissionais, que não podem observar apenas os sintomas alimentares ou de personalidade.
“Muitas vezes, o paciente chega com a queixa de sensação crônica de vazio, pensamentos de morte ou com comportamentos de autolesão, e muitos profissionais acabam tratando aqueles sintomas relatados e não abordam a preocupação com a imagem corporal e os comportamentos alimentares”, reforça a psiquiatra Maria Amália Pedrosa. Outro ponto importante é saber diferenciar o que é comportamento alimentar alterado e transtornos alimentares. Para este diagnóstico, os profissionais devem fazem as entrevistas clínicas estruturadas e utilizam instrumentos psicométricos. A psicóloga Mariane Leal Faleiros informa que, em geral, são usados a escala Borderline Symptom List – 23 (BSL-23), que avalia especificamente os sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline em adultos; a escala Difficulties in Emotion Regulation Scale (DERS), que analisa as habilidades de regulação emocional; e o inventário Eating Disorder Inventory – 3 (EDI-3), que avalia os fatores de risco associados a transtornos alimentares.
Os especialistas lembram que a estratégia de tratamento de pacientes com transtornos alimentares em comorbidade com transtornos de personalidade é muito complexa e requer uma equipe multidisciplinar treinada. E, como em qualquer doença, quanto mais precoce a intervenção, maiores as chances de recuperação. A psiquiatra Maria Amália Pedrosa afirma que o ideal é fazer o tratamento conjunto, porque a desestabilização de um quadro vai influenciar necessariamente no outro. “No entanto, se os sintomas do transtorno alimentar forem tão graves que representem risco de vida, principalmente pela desnutrição, por vezes precisamos recorrer até à internação, estabilizando o quadro clínico para depois conseguir seguir o tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline”, orienta. Alternativamente, se os sintomas do transtorno de personalidade forem tão graves que representem risco de vida ou reduzam significativamente a capacidade de iniciar o tratamento, esses devem ser tratados primeiro. Portanto, somente um profissional especializado poderá avaliar o paciente de forma global para decidir cada caso individualmente. •

