Apesar de os estudos científicos e experimentos já realizados mostrarem benefícios dos probióticos na dermatite atópica, o tratamento ainda atende a guidelines que encontram evidência científica na literatura para determinadas propostas terapêuticas – e os probióticos, de modo geral, ainda não estão inseridos em nenhum deles. A médica Flavia Alvim Sant’Anna Addor afirma que os inúmeros estudos mostrando uma resposta favorável no uso de probióticos em DA ainda não têm força de evidência suficiente para que uma terapêutica probiótica seja inserida em um guideline de DA, que segue medicamentoso. “Embora tenhamos muitas evidências na literatura sobre o uso de probióticos em DA, ainda não temos uma cepa determinada que seja estudada com força de recomendação, ou mesmo que tenha uma padronização de quanto tempo usar, qual a quantidade e em quais graus de dermatite atópica responderia melhor. O que temos hoje com mais evidência é a função preventiva dos probióticos na DA”, acentua.
Para a dermatologista Michelle Lise, os resultados dos estudos reforçam que cuidar da microbiota pode ser uma estratégia valiosa, especialmente em casos de DA resistente. “As evidências têm ficado cada vez mais sólidas. Diversas metanálises e revisões científicas mostram que a suplementação com probióticos pode reduzir a incidência de dermatite atópica em até 39%, especialmente quando usada em gestantes, lactantes e bebês. Esse efeito é mais forte quando a suplementação ocorre no período perinatal, envolvendo tanto a mãe quanto a criança nos primeiros meses de vida”, sinaliza. O motivo para essa ação benéfica dos probióticos na dermatite atópica está na forma como os probióticos modulam o sistema imunológico, ajudando a desenvolver tolerância a substâncias externas, equilibrando a inflamação e fortalecendo o eixo intestino-pele.
No entanto, é importante saber que os efeitos dependem da cepa. Por exemplo, Lactobacillus paracasei e Lactobacillus sakei mostraram bons resultados na redução da gravidade da DA avaliada pelo SCORAD, enquanto Lactobacillus rhamnosus, em alguns estudos, não apresentou benefício significativo. Em resumo, não é qualquer probiótico que funciona da mesma forma e o ideal é sempre ter orientação médica antes de iniciar qualquer suplementação. “Nem todo probiótico é igual. Cada cepa tem uma ação específica, por isso, sempre converse com seu médico antes de começar qualquer suplementação”, orienta. A dermatologista Michelle Lise complementa que a saúde da pele vem de dentro, por isso, cuidar da microbiota intestinal com alimentação equilibrada e, em alguns casos, com uso de probióticos bem indicados, pode fazer diferença em doenças de pele como a DA. Apesar de ainda não ter cura, este é um novo olhar sobre prevenção e tratamento baseado no equilíbrio do corpo como um todo.
O professor Sabri Saeed Sanabani acrescenta que a DA vem aumentando principalmente nos países desenvolvidos, e uma das questões envolvidas é a ‘teoria da higiene’, sugerindo que a diminuição da exposição a microrganismos na infância pode aumentar a predisposição a alergias e doenças autoimunes. Como as crianças estão tendo menos contato com patógenos para criar anticorpos e fortalecer o sistema imune, doenças autoimunes ou imunomediadas vêm ganhando cada vez mais espaço. “O sistema imune precisa amadurecer, e isso ocorre quando está exposto a infecções, contaminações e microrganismos do ambiente. Na medida em que vai amadurecendo, as memórias vão ficando mais fortes. Por isso, as crianças que vivem muito fechadinhas têm mais risco de ter um sistema imune pouco resistente”, ensina. Para o professor, quanto mais profundamente a relação entre microbiota intestinal e doenças autoimunes e imunomediadas for investigada, maiores serão as chances de melhorar os tratamentos e a qualidade de vida das pessoas. •

