O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que o Brasil tem aproximadamente 30 milhões de mulheres vivendo na faixa etária de climatério e menopausa, ou seja, cerca de 8% da população feminina. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que uma mulher está na menopausa após a ausência consecutiva de menstruação por 12 meses, o que normalmente ocorre entre os 45 e 55 anos. Com o avanço da idade, os ovários param de produzir estrogênio (principal hormônio feminino) e progesterona, marcando o fim do ciclo reprodutivo feminino. Este é um período de muitos desafios para as mulheres, uma vez que 103 sintomas já foram documentados desde a perimenopausa até a pós-menopausa. A ciência também já demonstrou que o microbioma intestinal exibe um dimorfismo sexual, com diferenças na composição e na função dos microrganismos que habitam o corpo humano entre machos e fêmeas, sendo regulado principalmente por hormônios sexuais, sistema imunológico e fatores dietéticos. Diante dessa constatação, pesquisadores acreditam que a modulação terapêutica do microbioma representaria uma abordagem potencial para o gerenciamento dos sintomas da menopausa.
No artigo ‘Spotlight on the gut microbiome in menopause: Current insights’, os autores explicam que a microbiota intestinal também está envolvida na regulação dos níveis de hormônio circulante livre, sugerindo uma relação bidirecional. “Embora grande parte da literatura se concentre no microbioma intestinal e nos estrogênios, outros hormônios excretados na bile, incluindo progesterona e andrógenos, são igualmente desconjugados e recirculados pelo microbioma intestinal”, resumem. Além disso, os autores presumem que os hormônios sexuais influenciem a microbiota intestinal servindo, em parte, como substratos para o metabolismo microbiano. A pesquisa indica, ainda, que a menopausa está associada a uma menor diversidade do microbioma intestinal e a uma mudança para uma maior semelhança com o microbioma intestinal masculino. No entanto, ainda permanecem muitas lacunas, incluindo o papel que o microbioma intestinal pode desempenhar nos riscos de doenças relacionadas à menopausa e se a terapia hormonal modifica a mudança relacionada à menopausa nesse ambiente.
Em busca dessas e de outras respostas, o grupo coordenado pela pesquisadora Renata Guerra de Sá Cota, professora titular do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Minas Gerais, estuda a microbiota intestinal e a microbiota vaginal de uma coorte de 102 mulheres desde 2018. O primeiro trabalho, intitulado ‘The correlation of the fecal microbiome with the biochemical profile during menopause: a Brazilian cohort study’ e publicado no periódico BMC Women’s Health em 2022, trata da caracterização parcial da microbiota intestinal – o artigo sobre a microbiota vaginal está em fase de conclusão. A pesquisa, desenvolvida em parceria com a Prefeitura de Ouro Preto nas unidades básicas de saúde (UBS) da cidade, envolve estudantes de Farmácia, Nutrição e Medicina. “Começamos a acompanhar as mulheres e o primeiro aprendizado que tivemos é de que havia um total desconhecimento sobre o que é esse processo de falência ovariana”, relata a docente.
Os sintomas da menopausa surgem de deficiências e flutuações no estrogênio e geralmente incluem questões vasomotoras (por exemplo, ondas de calor e suores noturnos), distúrbios de sono, alterações de humor e problemas urogenitais. Para a mulher brasileira, de forma geral, o processo de falência ovariana começa aos 52 anos. De acordo com a professora Renata Guerra de Sá Cota, é justamente nesta fase que ocorrem as mudanças hormonais mais significativas, embora muitas vezes as mulheres não prestem atenção no início desse processo. “Por exemplo, nesta fase começa aquele pequeno ganho de peso e a mulher engorda meio quilo em um ano, mais meio quilo no outro e, passados 10 anos, já incorporou cinco, seis quilos”, relata. Com a falência do estradiol que, além do ovário, também é produzido na glândula suprarrenal e no tecido adiposo, começa um acúmulo de gordura retroperitoneal, o índice de massa corporal (IMC) aumenta, a mulher perde massa magra e começa a desenvolver um quadro de resistência à insulina.
Diversidade microbiana – Além da diminuição dos níveis de estrogênio, o climatério coincide com uma redução na diversidade microbiana, tanto vaginal quanto intestinal. E isso pode levar a um aumento na permeabilidade do epitélio intestinal, favorecendo a translocação bacteriana e contribuindo para a inflamação sistêmica e para o desenvolvimento de enfermidades cardiometabólicas como obesidade, doenças cardiovasculares e osteoporose. Ao mesmo tempo, a microbiota vaginal passa a ter uma diminuição significativa de todas as espécies do gênero lactobacilos – os mais frequentes nesse ambiente. Com a alteração do pH vaginal geralmente ocorre candidíase de repetição, a elasticidade e a lubrificação vaginal diminuem e o ato sexual passa de prazeroso a doloroso. Por fim, a baixa de estradiol diminui significativamente a libido. “Os desfechos primário, secundário e terciário ao nível do sistema reprodutor pioram os quadros de ansiedade e depressão”, ressalta a docente da UFOP.
A professora doutora Priscila Larcher Longo, docente no curso de Medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), tutora no curso de graduação em Medicina e professora na pós-graduação do Programa de Ciências do Envelhecimento na Universidade São Judas Tadeu (USJT), ambas em São Paulo, acrescenta que durante a vida da mulher ocorrem muitas mudanças na composição da microbiota vaginal. “Antes do período menstrual, a menina tem uma microbiota vaginal completamente diferente de uma mulher na fase reprodutiva ou na gestação.
E neste período da ‘envelhecência’, quando a mulher começa a ter essas mudanças no nível de estrogênio, as mudanças são muito significativas”, reforça. De acordo com a docente, as células epiteliais vaginais utilizam o estrogênio como um sinalizador químico para produzir e armazenar glicogênio. E as bactérias intestinais, principalmente os lactobacilos, vão fermentar esse glicogênio e produzir ácido lático. Esse processo deixa o ambiente vaginal ácido – o que é bom para lactobacilos e outras bactérias importantes para a eubiose desse ambiente, mas ruim para espécies anaeróbias também presentes na microbiota vaginal.

