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Alergia alimentar na infância

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A alergia alimentar na infância exige atenção

Escrito por: Fernanda Ortiz

A alergia alimentar na infância se caracteriza por uma resposta inadequada do sistema imunológico a proteínas presentes nos alimentos. Embora seja difícil determinar a prevalência, estima-se que acometa de 6% a 8% dos menores de três anos. Evidências científicas apontam que a condição envolve uma complexa interação entre predisposição genética, fatores ambientais e alterações da microbiota intestinal. A alergia alimentar pode desencadear manifestações que variam de quadros leves à anafilaxia – reação alérgica grave, rápida e potencialmente fatal que afeta vários sistemas do corpo, comprometendo a qualidade de vida e impondo mudanças importantes na rotina familiar. Nesse contexto, o diagnóstico preciso, a prevenção de restrições alimentares desnecessárias e os avanços terapêuticos são pilares para um cuidado mais seguro, individualizado e eficaz.

O sistema imunológico possui mecanismos que permitem reconhecer e tolerar substâncias inofensivas, ao mesmo tempo em que responde contra agentes potencialmente prejudiciais. Entretanto, na alergia alimentar esse equilíbrio é rompido e proteínas presentes nos alimentos passam a ser reconhecidas como ameaças, desencadeando resposta imunológica inadequada. De acordo com a alergista e imunologista pediátrica Larissa Lima Henriques de Albuquerque, do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (HC-Unicamp), a doença pode ser classificada em dois grandes grupos. As formas mediadas por IgE (imunoglobulina E) – um anticorpo produzido pelo sistema imunológico – provocam reações imediatas e podem evoluir para quadros graves, como a anafilaxia. Já as formas não mediadas por IgE, mais frequentes em lactentes, se caracterizam principalmente por manifestações gastrointestinais. “A alergia alimentar envolve mecanismos imunológicos e, por isso, exige diagnóstico preciso e acompanhamento especializado”, detalha.

Aproximadamente 85% das alergias alimentares na infância estão relacionadas aos chamados Big Nine, principais grupos de alimentos mais frequentemente associados às reações alérgicas. Entre os exemplos estão leite de vaca, ovo, trigo, soja, amendoim, castanhas e outras oleaginosas, gergelim, peixes e frutos do mar. “Nos primeiros anos de vida, o leite de vaca e o ovo estão entre os principais desencadeadores, por serem alguns dos primeiros alimentos introduzidos na dieta da criança. Com a ampliação do repertório alimentar, outros alérgenos passam a ganhar importância”, esclarece a alergista e imunologista Ana Paula Beltran Moschione Castro, médica assistente da Unidade de Alergia e Imunologia do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ICr-HC-FMUSP). Dessa forma, a relevância de cada alérgeno pode variar conforme a faixa etária e os hábitos alimentares da família e da região onde habita.

Assim como outras doenças alérgicas, a alergia alimentar tem aumentado nas últimas décadas. Mas a prevalência é variável ao redor do mundo. Essa variabilidade não apenas reflete diferenças metodológicas e de critérios diagnósticos, mas também particularidades genéticas, ambientais e socioeconômicas. “Diversos fatores parecem contribuir para esse processo, incluindo aspectos genéticos, tipo de parto, amamentação, uso de fórmulas infantis, o momento de introdução da alimentação complementar, exposição precoce a antibióticos e padrão alimentar”, enumera a médica alergista e imunologista infantil Jackeline Motta Franco, coordenadora do Departamento Científico de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) e professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Nesse complexo equilíbrio, uma das hipóteses mais estudadas envolve principalmente a interação entre o microbioma intestinal e o sistema imunológico. Para a especialista, a composição da microbiota parece exercer papel importante na regulação da resposta imunológica, favorecendo a aquisição de tolerância aos alimentos ou, em determinadas situações, o desenvolvimento de respostas alérgicas.

Impactos emocionais

A alergia alimentar impacta a rotina de toda a família. O medo de reações graves faz com que atividades simples, como participar de festas, realizar refeições fora de casa ou acompanhar passeios escolares, exijam planejamento constante. “Além do impacto social, crianças com a condição apresentam maior risco de ansiedade, estresse, seletividade alimentar e outros problemas emocionais. Paralelamente, pais e cuidadores convivem com a preocupação de evitar exposições acidentais”, observa a médica Jackeline Motta Franco. Por isso, o envolvimento da família é considerado um dos pilares para a segurança, a adesão ao tratamento e a qualidade de vida da criança.

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