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Medicina regenerativa deverá revolucionar a saúde

Escrito por: Fernanda Ortiz

Do reparo de tecidos à reconstrução de estruturas biológicas em laboratório, a possibilidade de estimular o próprio organismo a se regenerar vem redefinindo o que se entende por tratamento médico. Neste cenário, a Medicina regenerativa se consolida como uma das áreas mais dinâmicas da ciência contemporânea. Mais do que controlar sintomas, a área busca ativar processos biológicos capazes de restaurar funções comprometidas e favorecer a recuperação de órgãos e tecidos danificados. Com avanços em células-tronco, engenharia de tecidos e biofabricação, a Medicina regenerativa integra diferentes frentes de pesquisa nas áreas de Cardiologia, Ortopedia e bioimpressão 3D de organoides, voltadas ao estudo de fundamentos biológicos aplicados à recuperação funcional. Embora muitas estratégias ainda estejam em fase experimental, os progressos indicam uma mudança gradual na prática clínica, impulsionada pela combinação de tecnologias que ampliam a precisão e a eficiência das intervenções

De acordo com a pesquisadora Patricia Pranke, professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Hematologia e Células-Tronco da Instituição, o termo Medicina regenerativa ganhou força no cenário internacional principalmente a partir dos anos 2000, impulsionado pelos avanços das pesquisas com células-tronco. “Embora terapias celulares já fossem utilizadas desde a década de 1970, como o transplante de medula óssea para doenças hematológicas, o início do século 21 ampliou as possibilidades de aplicação dessas células em diferentes áreas da Medicina”, comenta. No Brasil, o tema ganhou ainda mais destaque com a aprovação da Lei de Biossegurança, em 2005 – para a qual a professora prestou assessoria –, que autorizou pesquisas com células-tronco embrionárias humanas. Apesar da grande expectativa gerada na época, o desenvolvimento de novas terapias exige tempo, validação rigorosa e longos ciclos de pesquisa antes de alcançar a prática clínica.

Frequentemente associada às células-tronco, a Medicina regenerativa tem um conceito mais amplo voltado ao reparo e à regeneração de tecidos e órgãos danificados – independentemente da abordagem utilizada. Segundo a bióloga Andréa Gonçalves Trentin, professora titular do Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética e coordenadora do Laboratório de Células-Tronco e Regeneração Tecidual (LACERT) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), muitas pesquisas atuais se organizam em torno da chamada ‘tríade da engenharia tecidual’, formada por células, biomateriais (scaffolds) e moléculas bioativas responsáveis pela sinalização celular. “As células obtidas da medula óssea, do tecido adiposo ou do sangue, por exemplo, atuam como ponto de partida para a formação de novos tecidos. E os biomateriais funcionam como estruturas de suporte (arcabouços) para o crescimento celular”, afirma.  Já as moléculas bioativas – como fatores de crescimento, citocinas, proteínas e microRNAs – regulam a comunicação celular e orientam os processos de reparo tecidual.

Reparo cutâneo

Orientadas pela tríade da engenharia tecidual, as pesquisas no Brasil incluem estudos voltados ao reparo cutâneo, à regeneração óssea e à recuperação de lesões neurológicas. Entre os principais focos estão as células estromais mesenquimais – caracterizadas pela baixa imunogenicidade – obtidas de medula óssea, tecido adiposo, cordão umbilical e pele, dentre outros tecidos. No laboratório da bióloga Andréa Gonçalves Trentin, as investigações avaliam sua associação com matrizes dérmicas já utilizadas no tratamento de queimados. “Em modelos experimentais com camundongos, essa combinação acelerou a cicatrização e resultou em um reparo mais próximo da pele normal, com menor formação de cicatrizes. O efeito pode ter impacto clínico relevante em grandes queimaduras, com potencial de reduzir tempo de internação, custos hospitalares e sequelas funcionais e estéticas”, destaca.

Outro tema de pesquisa envolve o envelhecimento das células cultivadas em laboratório. “Para uso terapêutico, essas células precisam ser expandidas em cultura, processo que pode comprometer suas propriedades biológicas e reduzir o potencial regenerativo”, observa a pesquisadora Andréa Gonçalves Trentin. Para identificar diferenças relacionadas à eficiência terapêutica, o grupo compara células de humanos, cães e gatos cultivadas nas mesmas condições. Paralelamente, as pesquisas exploram terapias livres de células (cell-free), baseadas na hipótese de que os efeitos terapêuticos das células mesenquimais estejam ligados ao secretoma – conjunto de moléculas liberadas por elas, como proteínas, RNAs e microvesículas extracelulares. Um dos projetos em andamento busca caracterizar esse material e desenvolver produtos biológicos capazes de reproduzir tais efeitos sem o uso direto de células, o que pode simplificar o armazenamento e a logística, assim como aumentar a segurança imunológica.

As pesquisas em Medicina regenerativa também avançam no campo da edição gênica por CRISPR (sigla em inglês para Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats). Essa tecnologia permite modificar trechos específicos do material genético com mais eficiência em comparação às gerações anteriores de terapia gênica. De acordo com a pesquisadora Patricia Pranke, que também é coordenadora do Instituto de Pesquisa com Células-Tronco (IPCT), a tecnologia já vem sendo investigada experimentalmente em doenças hematológicas, e estudos clínicos no Brasil começam a avançar nessa direção. A expectativa é de que a combinação entre terapia celular, biomateriais, bioengenharia e edição gênica amplie significativamente o potencial terapêutico da Medicina regenerativa nos próximos anos.

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