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Doença negligenciada e silenciosa

Escrito por: Elessandra Asevedo

E­­­­mbora a doença de Chagas tenha sido descoberta em 1909 pelo sanitarista brasileiro Carlos Chagas, até hoje é considerada uma enfermidade negligenciada segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Dentre os motivos está o fato de a doença afetar uma parcela significativa da população de muito baixa renda e estar mais concentrada na América Latina, o que prejudica o investimento em pesquisas científicas, diagnóstico, controle e tratamento. As estimativas indicam que entre 6 e 7 milhões de pessoas estão infectadas, a maioria vivendo nessa região do planeta. Entretanto, o número pode ser ainda maior se for levado em consideração que existem 75 milhões de pessoas nas Américas que moram em áreas de risco. A indiferença é ainda mais preocupante porque, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), cerca de 70% dos indivíduos que vivem com a doença não sabem que estão ­infectados.

A doença de Chagas é causada pelo protozoário parasita Trypanosoma ­cruzi (T. cruzi) e pode causar problemas no coração, como miocardiopatia dilatada com evolução para insuficiência cardíaca; e digestivos, com aumento do intestino e do esôfago. Em todos os casos, se agravada, a enfermidade pode ser fatal. “A doença é subnotificada e o maior motivo está na baixa suspeita clínica por parte dos profissionais da saúde. Por exemplo, os sintomas da fase aguda, que incluem febre, dor de cabeça, fraqueza e até alguns inchaços no corpo, são sinais comuns em outras enfermidades. Os pacientes não recebem o diagnóstico correto nesta etapa e entram em um período longo, de 20 a 30 anos, sem qualquer sintoma, até descobrirem a doença quando já chegaram na fase crônica avançada por causa dos sintomas. Dentre os diagnosticados, 30% vão sofrer com danos cardíacos”, alerta o professor doutor Josué de Moraes, pesquisador e membro titular da Academia de Ciência do Estado de São Paulo (ACIESP) e chefe do Núcleo de Pesquisa em Doenças Negligenciadas da Universidade Guarulhos (NPDN-UNG).

A transmissão vetorial é a mais reconhecida e já ocupou o patamar de maior prevalência. Este tipo acontece porque o Trypanosoma cruzi é transmitido principalmente através das fezes ou da urina do inseto vetor infectado, conhecido como barbeiro. Ao se alimentar do sangue do hospedeiro, o inseto elimina os dejetos contendo o parasito. Ao penetrar na pele machucada ou, eventualmente, através de mucosas da boca e dos olhos, o T. cruzi alcança a corrente sanguínea e infecta as células do hospedeiro, como as do ­coração. O inseto pica normalmente à noite, no escuro, enquanto as pessoas estão dormindo. Por isso, muitos indivíduos não percebem e, ao acordar, esfregam os olhos ou levam a mão à boca.

Embora a doença de Chagas seja endêmica em 21 países da América Latina, 17 deles – entre os quais o Brasil – conseguiram interromper a transmissão intradomiciliar do seu principal vetor, o que permitiu a redução do número de novos casos nas últimas décadas. Entretanto, existem muitas outras espécies de barbeiro e a vigilância precisa ser mantida, pois ainda se estimam 30 mil novos casos da doença a cada ano pela via ­vetorial. As áreas de maior risco se concentravam em Minas Gerais, Goiás, Bahia, São Paulo e Nordeste brasileiro, principalmente em locais com casas rústicas, como as habitações rurais de pau a pique e taipas, que tinham rachaduras propícias para os barbeiros se alojarem.

Na década de 1970, houve no Brasil uma política de combate à doença com pulverização nas ruas e casas para matar o barbeiro. Além disso, foi realizado um trabalho de conscientização e incentivo para que as pessoas morassem em casas de alvenaria e distantes da mata, usassem repelentes, instalassem telas nas janelas e vestissem roupas compridas para manter distância do inseto em áreas endêmicas.  Atualmente, a região Norte concentra o maior número de casos no País, mas também há relatos na Europa, Ásia, Oceania e América do Norte devido à imigração de habitantes da América Latina.

A médica infectologista e doutora em doenças tropicais Érika Alessandra Pellison Nunes da Costa, docente da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (FMB-UNESP), afirma que na região Norte, em função do clima, da presença da floresta e da população ribeirinha – que vive em situação de risco – ainda há focos residuais da transmissão vetorial. No entanto, agora se destacam os casos de transmissão via oral, ou seja, por meio da ingestão de alimentos contaminados pelo próprio inseto ou pelas fezes de insetos contaminados. “O animal se aloja na palmeira do açaí e em outros frutos da região Amazônica utilizados pela população por meio do extrativismo. A contaminação ocorre porque os frutos são recolhidos e utilizados sem serem higienizados. Nas demais regiões do Brasil, o inseto pode estar presente na cana de açúcar, gerando os surtos ocasionais”, adverte.

Além da transmissão oral e vetorial, a doença de Chagas pode ocorrer por meio da transfusão de sangue ou de hemoderivados de doadores infectados, de uma mãe infectada para o recém-nascido durante a gravidez ou parto, ou pelo transplante de órgãos de doadores infectados. Ainda há casos, também, de acidentes de laboratório. “Todas as formas podem ser evitadas. No caso da transmissão vetorial, é preciso dar melhores condições de moradia e ter um serviço de vigilância à saúde nas áreas endêmicas, coletando o barbeiro e analisando se está infectado. Hoje, também há um grande cuidado em relação à transfusão de sangue, doação de órgãos e segurança no trabalho. No caso da via oral, é preciso ter cuidado com a higiene dos alimentos e, para não haver a transmissão vertical, é necessário maior cuidado com a saúde da mulher”, sinaliza o pesquisador Josué de Moraes.

Mortes

Dados da OPAS mostram que mais de 10 mil pessoas morrem a cada ano em consequência de complicações clínicas da doença de Chagas. No Brasil, apesar do declínio geral da mortalidade, continua sendo um importante problema de saúde pública. Segundo os especialistas, as medidas devem ser mais estratificadas para as regiões Norte e Nordeste devido à maior incidência da doença nessas áreas.

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