Direcionada para as tradições do cuidado, a prática de imposição de mãos é uma das expressões mais ancestrais da humanidade, com registros que remontam ao Antigo Egito. Através do simples ato de colocar as mãos sobre a pessoa – com ou sem toque físico –, é possível equilibrar a energia vital e restaurar o bem-estar físico, emocional e mental. Presente em diversas culturas e tradições religiosas ao redor do mundo, essa técnica tem nomes e objetivos variados, mas sempre carregando o propósito de transmissão, consagração, bênção, acolhimento, promoção ou restabelecimento do bem-estar. No cuidado voltado à saúde os benefícios são numerosos, incluindo redução do estresse e da ansiedade, equilíbrio emocional, melhora na qualidade do sono, relaxamento, melhor funcionamento do sistema imunológico, alívio da dor e de quadros inflamatórios, aumento da sensação de bem-estar e melhor circulação sanguínea.
As terapias de imposição de mãos não envolvem a aplicação de força e, quando o toque acontece, é muito suave, quase imperceptível. De acordo com o professor e Ph.D. em Saúde Coletiva Ricardo Monezi, coordenador dos Cuidados Integrativos em Oncologia do A.C. Camargo Cancer Center e docente da Pós-graduação em Saúde Integrativa da Faculdade de Educação em Ciências da Saúde (FECS) do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, as mãos sobre o corpo se movem como um canal visível para uma ação invisível. “Independentemente da vertente filosófica, o praticante atua como um intermediário meditativo para a energia vital. Ao direcionar as mãos para pontos específicos, ajuda a identificar e corrigir desequilíbrios no campo energético do paciente. Como resultado, promove a restauração do fluxo natural e, consequentemente, a harmonia do corpo e da mente”, explica. Apesar de o toque não ser invasivo, o paciente pode sentir uma sensação de calor ou um leve formigamento.
Praticada há séculos em diferentes culturas, as manifestações possuem abordagens específicas. Na prática religiosa, o passe espiritual é uma das principais técnicas de imposição de mãos. “Nele, os médiuns passistas canalizam energia, seja do próprio praticante, de bons espíritos ou de ambas as fontes. O objetivo é auxiliar no tratamento de condições espirituais, físicas ou emocionais, proporcionando alívio, relaxamento e estímulos para processos de cura”, descreve o professor. O Okiyome é uma técnica japonesa utilizada na prática do Seicho-No-Ie que trabalha pela restauração do equilíbrio energético, estimulando o processo de autocura e a conexão com a fonte espiritual. Já o Johrei, praticado na religião messiânica japonesa, busca a cura física e emocional, a purificação e a elevação da consciência através da canalização de uma energia espiritual luminosa. Em diferentes credos e filosofias, até mesmo o simples ato de estender as mãos pode ser o primeiro passo para o recebimento de uma bênção ou energia para o bem-estar.
Integralidade
Uma das principais características dessas práticas é a multidimensionalidade, ou seja, o cuidado voltado para o ser humano na sua integralidade e não com foco direcionado, por exemplo, ao tratamento de doença. O pesquisador observa que, mais do que canalizar e transmitir energia vital para o cuidado biológico de órgãos e sistemas, a imposição de mãos promove o cuidar psicológico composto de respeito, emoções, sentimentos e comportamentos. “Essa conexão entre indivíduo físico/emocional e ambiente se baseia na crença de que tudo está interligado e que, portanto, zelar por esse ecossistema deve ser visto como uma prioridade de cuidado global”, destaca. Além da intenção de cuidar, as terapias estabelecem efeitos positivos no próprio terapeuta, por exemplo, relaxamento, redução do estresse e equilíbrio energético.
Para o pesquisador, que há mais de duas décadas estuda a efetividade dessas práticas, a terapia da imposição de mãos é promotora de qualidade de vida, pois oferece uma série de benefícios para a saúde física, mental e emocional. “Além disso, quando aplicada com regularidade auxilia no tratamento de condições crônicas, cardíacas e metabólicas, reduz efeitos colaterais da quimioterapia e da radioterapia, e tem sido uma importante aliada nos cuidados paliativos para pacientes, hospitalizados ou não, em estado terminal”, aponta.

