A Medicina regenerativa musculoesquelética representa uma fronteira promissora ao integrar biologia celular, engenharia tecidual e prática clínica avançada para restaurar estruturas ósseas, cartilaginosas, dos tendões e musculares – antes consideradas de recuperação limitada ou irreversível. Mais do que controlar sintomas ou substituir tecidos lesionados, essa abordagem busca estimular os próprios mecanismos biológicos de reparo do organismo por meio de terapias como células-tronco, plasma rico em plaquetas (PRP), biomateriais e fatores de crescimento. O impacto já é perceptível na Ortopedia, na Medicina Esportiva e na reabilitação, com alternativas menos invasivas e com potencial de acelerar a recuperação funcional, deslocando o foco da reparação mecânica para a regeneração biológica ativa dos tecidos.
De acordo com o médico ortopedista Marco Kawamura Demange, professor associado do Departamento de Ortopedia e Traumatologia e diretor do Núcleo de Ortopedia Regenerativa, Banco de Tecidos e Terapia Celular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), o corpo humano possui uma capacidade variável de crescimento e regeneração celular que depende diretamente do órgão e do tipo de tecido envolvido. Entre os tecidos com alta capacidade regenerativa destaca-se o osso, podendo se recuperar completamente após fraturas – ainda que em alguns casos ocorra formação de calo ósseo. “Na outra extremidade está a cartilagem, um tecido pouco vascularizado e com baixíssima capacidade de regeneração espontânea na vida adulta, o que limita a chegada de células e fatores de reparo necessários para a cicatrização”, descreve.
Desafios
Um dos maiores desafios no reparo de lesões articulares dentro da Ortopedia, a cartilagem apresenta uma organização estrutural altamente especializada, com diferentes tipos de tecidos que variam em composição, função e capacidade regenerativa. Essas estruturas incluem as cartilagens articulares presentes em articulações como joelho, quadril, tornozelo, punho, cotovelo e ombro; a fibrocartilagem, encontrada nos discos intervertebrais da coluna onde podem ocorrer hérnias de disco, e também no menisco; e os ligamentos, que possuem potencial relativamente maior de cicatrização. “Apesar de os tratamentos atuais serem majoritariamente sintomáticos, as abordagens regenerativas vêm surgindo como alternativas promissoras, sobretudo em lesões precoces, permitindo a reparação parcial dos tecidos”, acentua o ortopedista e pesquisador Alessandro Rozim Zorzi, professor e médico assistente do Departamento de Ortopedia, Reumatologia e Traumatologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

