Em fevereiro de 2020, o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará foi notificado sobre a ocorrência de uma doença de causa desconhecida entre detentos do maior presídio estadual masculino do Estado. Os pacientes apresentavam manifestações clínicas como edema, dor, hematomas e equimoses em membros inferiores. Além de extravasamento sanguíneo e sangramento de gengivas, alguns apresentavam febre e muitos não conseguiam andar. Considerando que o escorbuto é uma condição rara na atualidade, as hipóteses diagnósticas iniciais foram acidente causado por animal peçonhento, trombose venosa profunda, intoxicação exógena, trauma, filariose, leptospirose, arbovirose e febre maculosa.
No mês seguinte, após a notificação de 49 casos suspeitos, foi solicitado apoio da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, por meio de equipe do Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do Sistema Único de Saúde (EpiSUS-Avançado, ou Brazil FETP – sigla em inglês de Field Epidemiology Training Program), para a investigação epidemiológica do evento. De acordo com o então profissional de saúde do programa e principal investigador do possível surto, Leonardo José Alves de Freitas, o momento era muito delicado, pois estavam sendo notificados os primeiros casos de covid-19 no Brasil. “Precisávamos agir com rapidez, já que o ideal é conduzir a investigação de surtos em até 15 dias e ainda estávamos em um momento difícil e de alto risco que era o início da pandemia. Então, aplicamos os 10 passos clássicos de investigação de surtos do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), adaptados à realidade brasileira”, relembra o biólogo mestre em Biologia Celular e epidemiologista de campo, atualmente especialista em gestão de serviços de saúde no Canadá.
Assim, foi estruturado um estudo do tipo caso-controle, precedido de revisão de prontuários nos hospitais onde os detentos que adoeceram foram atendidos, entrevistas clínicas e reuniões técnicas com as equipes assistenciais para levantamento dos dados. Ao todo, foram identificados 62 casos. A análise epidemiológica, associada às discussões clínicas com as equipes envolvidas, direcionou a hipótese diagnóstica para deficiência vitamínica, especialmente de vitamina C. Diante da forte suspeita, foi iniciada suplementação oral de vitamina C para todos os detentos, de forma preventiva, considerando a alimentação restrita e com ausência de frutas e vegetais frescos. Com a ação, observou-se a melhora dos sintomas em torno de sete dias, além da interrupção da ocorrência de novos casos.
“Com base em resultados e conclusões do estudo, foi confirmado o surto de doença compatível com escorbuto e recomendou-se ao Ministério da Saúde o fortalecimento da garantia de alimentação adequada às pessoas privadas de liberdade. A medida, além de prevenir adoecimentos evitáveis, reduz a necessidade de atendimentos médicos e os custos associados ao sistema de saúde”, finaliza o especialista. Os achados da investigação estão descritos no artigo científico intitulado ‘Investigação de surto de doença compatível com escorbuto em uma penitenciária masculina do Ceará, 2019-2020: um estudo de caso-controle’, publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde (RESS) (v. 32, n. 2, 2023), periódico científico do Ministério da Saúde.

