Um estudo recente explora a complexa relação entre o eixo microbiota oral-intestinal e o desenvolvimento do câncer de pâncreas, especialmente o adenocarcinoma ductal pancreático (ADP). A pesquisa reúne evidências de que microrganismos presentes na cavidade oral podem impactar diretamente a microbiota intestinal. Por consequência se destacam como fator relevante na modulação da resposta imunológica, na inflamação sistêmica e nos processos associados à carcinogênese pancreática. A compreensão dessa relação pode, portanto, influenciar o desenvolvimento, diagnóstico e tratamento da neoplasia.
O câncer de pâncreas é uma neoplasia agressiva, frequentemente diagnosticada em estágios avançados devido à ausência de sintomas iniciais claros. Com alta letalidade, figura entre as principais causas de morte por câncer em todo o mundo. Dos tipos relacionados ao órgão, o adenocarcinoma ductal pancreático é o mais comum, representando cerca de 90% dos casos. De acordo com os autores, avanços recentes na pesquisa sobre ADP revelaram que a presença de microbiota intratumoral em tecidos (antes considerados estéreis) é considerada crucial para o desenvolvimento e a progressão do tumor. A origem da microbiota intratumoral no ADP permanece debatida, mas a cavidade oral e o intestino são amplamente reconhecidos como as fontes mais abundantes.
De acordo com os autores, devido às características anatômicas (embora não idênticas) as microbiotas oral e intestinal estão interligadas. “As bactérias orais podem migrar para o intestino pela circulação sanguínea ou pelo trato digestivo, enquanto as intestinais podem se direcionar para a cavidade oral”, comentam. Essa troca bidirecional está implicada em doenças gastrointestinais com patógenos orais como Staphylococcus, Porphyromonas, Fusobacterium, Actinomyces e Neisseria, frequentemente detectados no intestino de pacientes afetados. Tais achados sugerem que o eixo microbiota oral-intestinal influencia no ADP, oferecendo uma nova perspectiva sobre a fisiopatologia, o diagnóstico, prognóstico e tratamento da doença.
Achados
Além da conexão entre boca, intestino e pâncreas, formando um eixo biológico relevante na doença, o estudo destaca outros achados importantes. Entre eles, os autores citam que alterações no equilíbrio da microbiota (disbiose), tanto na cavidade oral quanto no intestino, estão associadas à inflamação crônica e à criação de um ambiente favorável à carcinogênese pancreática. Os relatos destacam, ainda, a participação de microrganismos específicos. “Certas bactérias orais e intestinais foram associadas ao aumento do risco e à progressão tumoral, enquanto outras podem exercer efeitos protetores, indicando um papel diferencial dos microrganismos”, observam.
Potencial para diagnóstico precoce
Estudos apontam que os perfis microbianos da boca e do intestino surgem como candidatos a biomarcadores não invasivos, com potencial para melhorar a detecção precoce do câncer de pâncreas. Outros achados indicam que a modulação da microbiota por meio de dieta, do uso de probióticos e prebióticos e de outras intervenções, se destaca como uma abordagem promissora para prevenção e tratamento, especialmente em combinação com terapias convencionais. Para isso, os autores reforçam que é preciso enxergar o câncer pancreático de forma sistêmica, considerando a interação entre microbiota, inflamação e resposta imune.
Limitações
De acordo com os autores, a maioria dos estudos sobre a microbiota intratumoral revisados se limita atualmente a pesquisas observacionais, resultando em dados restritos e frequentemente inconclusivos. Além disso, a sublocalização da microbiota intratumoral é uma questão crucial que merece ser explorada no futuro, pois impacta significativamente a formulação de estratégias de tratamento. Fatores como geografia, raça, estilo de vida e julgamentos subjetivos dos pesquisadores também influenciam o processo de pesquisa e a formulação de estratégias.
“Apesar desses desafios, deve-se considerar esses fatores tanto da perspectiva terapêutica quanto da prognóstica. Superar as limitações atuais e aproveitar as tecnologias emergentes será essencial para traduzir esses conhecimentos em prática clínica”, concluem os autores. O artigo ‘Role of the oral-gut microbiota axis in pancreatic cancer: a new perspective on tumor pathophysiology, diagnosis, and treatment’ foi publicado em março de 2025 na revista científica Molecular Medicine.

