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Doenças neurodegenerativas e demências do envelhecimento

Escrito por: Elessandra Asevedo

Um estudo publicado pela revista científica Nature, em fevereiro, acompanhou mais de 130 mil profissionais da saúde ao longo de 43 anos e mostrou que o consumo moderado de cafeína, especialmente entre duas e três xícaras de café por dia ou uma a duas xícaras de chá, esteve associado ao menor risco de demência e a um declínio cognitivo mais lento ao longo do envelhecimento. O trabalho ‘Coffee linked to slower brain ageing in study of 130,000 people’, que utilizou dados da pesquisa Nurses’ Health Study e Health Professionals Follow-up Study, pontua que as pessoas com maior consumo de cafeína tiveram cerca de 18% menos risco de desenvolver demência em comparação com aquelas que consumiam pouca ou nenhuma quantidade. Outro ponto que chamou atenção dos pesquisadores foi o fato de que o café descafeinado não apresentou a mesma associação protetora, sugerindo que a cafeína pode desempenhar papel central nesse possível efeito neuroprotetor.

“As pesquisas indicam que o consumo regular de cafeína pode realmente exercer efeitos neuroprotetores, auxiliando na preservação da memória e contribuindo para a prevenção do declínio cognitivo associado ao envelhecimento”, afirma a pesquisadora Lisiane de Oliveira Porciuncula, professora doutora do curso de pós-graduação em Ciências Biológicas – Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Um dos trabalhos publicados pela pesquisadora há alguns anos já indicava que a cafeína consumida na idade adulta pode prevenir o declínio da memória de reconhecimento associado ao envelhecimento. O estudo ‘Caffeine prevents age-associated recognition memory decline and changes brain-derived neurotrophic factor and tyrosine kinase receptor (TrkB) content in mice’ mostrou que os camundongos idosos que consumiram doses moderadas de cafeína na vida adulta apresentaram o mesmo desempenho na memória de reconhecimento que os camundongos adultos.

Alguns estudos também sugerem que a cafeína pode ser um tratamento adjuvante para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o que levou a pesquisadora Lisiane de Oliveira Porciuncula, junto com outros profissionais, a identificar as alterações morfológicas durante o desenvolvimento in vitro de neurônios do córtex frontal de ratos hipertensos espontâneos (um modelo de rato com TDAH) e ratos Wistar-Kyoto (linhagem controle). O grupo investigou, ainda, os efeitos da cafeína e da sinalização dos receptores de adenosina em neurônios incubados com a substância. A publicação ‘Caffeine and adenosine A2A receptors rescue neuronal development in vitro of frontal cortical neurons in a rat model of attention deficit and hyperactivity disorder’ demonstrou, pela primeira vez, que neurônios corticais frontais cultivados de um modelo de TDAH apresentaram um padrão claro de diferenciação prejudicada.

A pesquisadora explica que os efeitos benéficos da cafeína têm como alvo o receptor de adenosina A2AR. “Ao reestabelecer o crescimento neuronal dos animais modelo do TDAH, a cafeína – via receptor A2AR – pode ser uma estratégia terapêutica adjuvante para o tratamento desse transtorno”, sinaliza. Em outra pesquisa, publicada em abril deste ano, foram exploradas as diferenças sexuais dos efeitos da cafeína em camundongos com TDAH. Os achados mostram que a substância atenuou o comportamento impulsivo em machos, mas desencadeou em fêmeas, o que está de acordo com relatos que indicam uma maior suscetibilidade feminina aos efeitos ansiogênicos da cafeína. Entretanto, a cafeína foi benéfica em melhorar o desempenho em tarefas de memória em machos e fêmeas modelo do TDAH. Assim, há a necessidade de considerar as diferenças sexuais nos efeitos da cafeína para o transtorno. •

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