Cada fase da vida pode envolver propósitos específicos, que se transformam de acordo com as experiências, responsabilidades e prioridades. Enquanto na infância e adolescência o sentido costuma estar ligado ao aprendizado e à formação da identidade, na vida adulta frequentemente se relaciona à construção de carreira, relações afetivas e estabilidade. Já no envelhecimento pode se voltar para a manutenção do bem-estar, ao fortalecimento de vínculos e à busca por atividades que gerem satisfação e significado. Esses propósitos são dinâmicos, acompanhando as mudanças naturais do desenvolvimento humano ao longo do tempo.
Em todas as fases, ao atribuir sentido às próprias ações e escolhas o indivíduo tende a lidar melhor com situações de estresse, apresentando maior estabilidade psicológica e menor vulnerabilidade. Esse senso de direção também favorece a adoção de hábitos mais saudáveis e maior adesão a cuidados com a saúde, o que pode refletir em benefícios físicos ao longo do tempo. Em contrapartida, a ausência de propósito pode surgir em determinados estágios da vida, uma vez que o sentido atribuído à existência não é fixo e pode ser influenciado por diferentes transições pessoais.
O propósito de vida tem sido cada vez mais explorado em artigos científicos, especialmente nas áreas de Psicologia, saúde e envelhecimento, que buscam compreender sua relação com o bem-estar, a saúde mental e a qualidade de vida. Recentemente, uma pesquisa conduzida pelo psicólogo Wellington Lourenço Oliveira, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Faculdade de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), destacou que o envelhecimento não é determinado apenas por aspectos biológicos, mas também por elementos subjetivos.
A partir de análise transversal baseada nos dados do estudo ‘Fragilidade em Idosos Brasileiros (FIBRA)’, realizada entre 2016 e 2017, a investigação identificou que adultos e idosos com maior propósito de vida tendem a apresentar melhor funcionamento cognitivo, incluindo habilidades como memória, atenção e raciocínio. Os achados sugerem que um elevado propósito de vida pode atuar como uma espécie de proteção contra o declínio cognitivo, possivelmente por incentivar maior autonomia, interações sociais, aprendizagem contínua e capacidade de tomada de decisão.
Apesar de ser considerado um agente protetor para a cognição, o propósito de vida não atua de forma isolada. Assim, fatores como nível educacional, condições socioeconômicas, autocuidado, redes de apoio social, saúde física e emocional também desempenham papel fundamental neste processo. “Isso ocorre porque a associação entre ‘ter objetivos’ e ‘perceber sentido na vida’ está associada a menores níveis de estresse, ansiedade e depressão”, destaca o pesquisador.
Resumidamente, o propósito de vida não precisa estar vinculado a grandes realizações, podendo emergir de experiências cotidianas como cuidar da família, participar de uma comunidade, desenvolver hobbies ou contribuir com outras pessoas, desde que essas ações sejam percebidas como significativas. Embora o estudo não avalie diretamente a longevidade em termos de tempo de vida, seus achados apontam para um envelhecimento mais funcional e independente. O artigo ‘Higher purpose in life and education were associated with better cognition among older adults’ foi publicado em 2024 no periódico Arquivos de Neuropsiquiatria. •

