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Amamentação exclusiva e o microbioma intestinal

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Papel da amamentação na maturação do microbioma

Escrito por: Adenilde Bringel

Embora a literatura tenha afirmado, até pouco tempo, que o tipo de parto é um preditor da microbiota devido à primeira carga bacteriana que a criança recebe, estudos mais recentes mostram que é a amamentação que modula a microbiota. Portanto, se sobrepõe ao parto em importância. Além disso, é consenso que a amamentação exclusiva (EBF, na sigla em inglês) desempenha um papel crucial na montagem e no desenvolvimento do microbioma intestinal infantil. No entanto, poucos estudos investigaram os efeitos da EBF na restauração de um microbioma perturbado.

Por isso, pesquisadores do Laboratório de Microbioma Humano do ICB-USP utilizaram sequencia­mento metagenômico para avaliar a montagem do microbioma intestinal de 525 bebês brasileiros de 3 a 9 meses, participantes do Projeto Germina. Assim, foi possível demonstrar os primeiros determinantes da taxonomia e da modulação da função microbiana. O Germina é uma coorte prospectiva contínua projetada para avaliar as díades mãe-bebê nos primeiros 1.000 dias de vida.

De acordo com a pesquisadora Carla Taddei, coordenadora dos estudos, esse é o primeiro trabalho do Brasil que descreve a microbiota de crianças entre 3 e 36 meses de idade em número expressivo por meio da técnica de Shotgun. Esta técnica permite uma análise muito mais profunda do que a metodologia do sequenciamento do gene 16S. “Na metodologia do 16S conseguimos sequenciar, por amostra, de 500 a 600 mil leituras de DNA, enquanto o Shotgun sequenciou 5 milhões de sequências por amostra”, compara. Assim, essa profundidade de sequenciamento permite que o grupo consiga ir mais fundo nos resultados. Além disso, pode fazer as análises das rotas metabólicas para investigar quais são os genes que essas bactérias têm e o que estão fazendo com a microbiota.

Achados

A análise das amostras de crianças de 3 a 9 meses mostrou que a amamentação exclusiva altera a abundância relativa de genes relacionados à taxonomia e à função do microbioma, com efeitos que variam com o modo de entrega. Por exemplo, a EBF altera o padrão de carboidratos, o metabolismo lipídico e as vias de estrutura celular. Além disso, a idade do microbioma está mais próxima da idade cronológica infantil em bebês com aleitamento exclusivo (em relação a bebês não EBF), o que significa um menor índice de maturação do microbioma intestinal – o que é esperado para esta idade.

“Usando uma abordagem complementar de aprendizado de máquina, mostramos que Escherichia coli, Ruminococcus gnavus e Clostridium neonatale, bem como as vias de vitamina K e antígeno O, contribuem fortemente para a previsão da EBF”, relata a professora Carla Taddei. Os resultados mostraram, ainda, que Escherichia coli e Bifidobacterium longum eram as espécies dominantes até os sete meses da criança, independentemente das práticas de amamentação e do modo de parto.

Em momentos anteriores avaliados, Bacteroides vulgatus, Bacteroides fragilis, Bifidobacterium breve, Bifidobacterium bifidum e Ruminococcus gnavus estavam consistentemente entre as espécies mais abundantes, ao lado de C. neonatale em bebês de três meses, e de Veillonella parvula em bebês de 5 a 7 meses. Aos 8 a 9 meses, B. longum e B. fragilis permaneceram as espécies mais abundantes, seguidas por B. vulgatus, B. breve, R. gnavus, E. coli e Prevotella copri. Os resultados do estudo ‘Exclusive breastfeeding is associated with the gut microbiome maturation in infants according to delivery mode’ mostram, ainda, que a amamentação exclusiva também influencia na maturação do microbioma no início da vida.

Além das amostras de fezes dos bebês, o grupo colheu amostras do leite das mães para avaliar a relação das bactérias encontradas em ambos. “Existe um mundo de bactérias no leite e não sabemos nem um terço do que estão fazendo ali. A literatura diz que a microbiota sofre uma sucessão bacteriana importante ao longo do primeiro ano de vida da criança. Mas, com três meses de vida, os bebês já têm uma população de bactérias relativamente estável”, afirma a professora Carla Taddei.

Degradadora

Os resultados também confirmaram que a microbiota dos bebês é dominada por Bifidobacterium, principal degradadora do oligossacarídeo do leite materno. A Bifidobacterium quebra e disponibiliza metabólitos para outras bactérias e, assim, regula a microbiota. No estudo, essa dominância foi vista aos 3 e 6 meses de idade. Em segundo lugar vem a Escherichia coli, conhecida na literatura como uma bactéria patobionte ou até potencialmente patogênica – mas que é considerada normal na população do Brasil.

Neste estudo, essa bactéria foi associada com produção de vitamina K, modulada pela amamentação exclusiva. “Tudo isso é muito incrível, porque a microbiota do bebê é dominada por E. coli e Bifidobacterium. E, em contrapartida, a microbiota do leite da mãe é dominada por Staphylococcus e Streptococcus, que estão ali fazendo alguma coisa importante que não é colonizar o intestino do bebê”, descreve a professora. Por esse motivo, os pesquisadores querem desvendar qual é o papel dessas duas bactérias no leite materno. Além disso, procuram encontrar a correlação com alguma rota metabólica que consiga explicar esse antagonismo.

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