O uso de células-tronco na Ortopedia se destaca principalmente pela modulação do ambiente biológico da lesão. Para o ortopedista Marco Kawamura Demange, na prática, o potencial das células-tronco – especialmente as mesenquimais obtidas da medula-óssea ou do tecido adiposo – está muito mais ligado à sua capacidade de liberar fatores bioativos que influenciam inflamação, vascularização e reparo tecidual do que em se transformarem em novos tecidos funcionais. “Dessa forma, os resultados obtidos em pesquisas experimentais dependem do contexto da lesão e do tipo de tecido envolvido, com melhores respostas em lesões iniciais e reparos de tendões, e limitações mais evidentes na perda avançada de cartilagem”, detalha. Portanto, o objetivo central dessas estratégias é melhorar o ambiente de cicatrização e otimizar a qualidade do tecido reparado.
Na prática experimental, diferentes abordagens vêm sendo testadas. Na Unicamp, o grupo do professor Alessandro Rozim Zorzi investiga células-tronco mesenquimais derivadas do tecido adiposo em lesões cartilaginosas do joelho associadas a biomateriais. “Em um dos estudos, os animais que receberam implantes de células-tronco demonstraram melhora na cicatrização das lesões cartilaginosas e maior qualidade do tecido reparado em comparação aos grupos controle”, descreve o pesquisador. Em outra frente, avalia-se o aspirado de medula óssea do osso ilíaco, rico em células e fatores biológicos, como modulador inflamatório e estimulador do reparo – especialmente na cartilagem. Na USP, também estão em estudo células de diferentes origens, como tecido mesenquimal, células reprogramadas (iPS), fetais e de placenta.
Além das células-tronco, a Ortopedia regenerativa incorpora outras de suporte biológico. O plasma rico em plaquetas (PRP) é uma terapia biológica autóloga baseada na liberação de fatores de crescimento pelas plaquetas, com potencial de modular inflamação e estimular o reparo de diferentes tecidos musculoesqueléticos como tendões, cartilagem e osso. “Em trabalhos experimentais e revisões científicas, a terapia é descrita como um recurso capaz de favorecer a proliferação celular, modular a resposta inflamatória e acelerar processos de cicatrização, sobretudo quando associada a biomateriais ou aplicada em modelos de lesão controlada”, destaca o ortopedista Alessandro Rozim Zorzi. Em síntese, trata-se de uma terapia adjuvante biológica promissora, com benefícios mais consistentes na melhora de dor e função em algumas condições, mas ainda sem comprovação de regeneração completa de tecidos.
Considerada um recurso relevante na Medicina regenerativa, a oxigenoterapia hiperbárica é descrita como terapia adjuvante em condições de comprometimento da oxigenação e da cicatrização tecidual. A terapia otimiza o ambiente biológico do reparo, aumenta a disponibilidade de oxigênio nos tecidos, modula a inflamação e favorece processos como angiogênese e cicatrização. “Na literatura científica, a oxigenoterapia ocupa papel importante em feridas complexas, lesões isquêmicas, infecções crônicas e algumas condições ortopédicas, funcionando como estratégia de suporte que pode potencializar a recuperação tecidual, sempre como parte de um conjunto terapêutico maior”, detalha o médico Marco Kawamura Demange. Na Medicina regenerativa musculoesquelética tende a se consolidar como parte do arsenal do ortopedista ao lado de ferramentas já estabelecidas, em um movimento no qual o tratamento deixa de se limitar a intervenções mecânicas e passa a incorporar estímulos biológicos capazes de modular cicatrização e envelhecimento tecidual.

