Como parte do estudo prospectivo de coorte multicêntrico desenvolvido no Helmholtz Centre for Infection Research pelo pesquisador Luiz Gustavo dos Anjos Borges foram recrutadas 78 mulheres com ruptura prematura de membranas e seus 89 recém-nascidos. A microbiota vaginal materna e a microbiota retal, do sangue do cordão umbilical, da faringe e do mecônio foram analisadas por sequenciamento do gene 16S rRNA. Inicialmente, os pesquisadores demonstraram alguns pontos já conhecidos, por exemplo, que a microbiota vaginal tem uma condição bem estabelecida dominada por Lactobacillus spp. “Mesmo em todas as mães que apresentavam ruptura de membranas, um grande número (cerca de 65%) tinha dominância de lactobacilos, o que é considerado como microbiota vaginal saudável. Mas também existem condições ou períodos em que a microbiota vaginal não é dominada por lactobacilos e isso, aparentemente, não interfere na questão de haver rompimento de membranas”, afirma o cientista.
Entretanto, após a ruptura de membranas ocorrem várias situações. Por exemplo, se um rompimento parcial ocorre com menos de 30 a 33 semanas, a recomendação é tentar manter o bebê por mais algumas semanas no útero para chegar mais próximo do tempo ideal. “Neste momento, se faz alguma intervenção com antibióticos para evitar que qualquer bactéria agressiva infecte o bebê antes do nascimento, evitando a sepse neonatal”, explica. Das participantes do estudo, todas receberam antibioticoterapia, mas muitas não tiveram o sucesso esperado e houve 18 casos de sepse neonatal. Um segundo ponto relevante foi tentar determinar quais bactérias poderiam predizer que esses bebês poderiam desenvolver uma sepse neonatal.
“Fizemos algumas análises estatísticas de regressão e conseguimos observar que, em pelo menos 80% dos casos, poderíamos ter previsto se tivéssemos analisado a composição bacteriana da vagina da mãe”, relata o pesquisador. As análises demonstraram que o tratamento antibiótico padrão desencadeia mudanças significativas na comunidade microbiana materna, com depleção relativa de Lactobacillus spp. e enriquecimento relativo de bactérias patogênicas como Ureaplasma parvum, acompanhado por um aumento na diversidade bacteriana. Já a microbiota neonatal mostrou uma composição microbiana heterogênea, com amostras de mecônio caracterizadas por táxons específicos enriquecidos neste nicho. De acordo com os resultados, a microbiota vaginal ao nascimento demonstrou ter potencial de prever sepse neonatal de início precoce com Escherichia/Shigella e Facklamia como táxons de risco e Anaerococcus obesiensis e Campylobacter ureolyticus como táxons de proteção.
Os casos de sepse neonatal de início precoce também podem ser previstos a uma taxa razoável de predição em comunidades de mecônio neonatal com os táxons protetores Bifidobacterium longum, Agathobacter rectale e Staphylococcus epidermidis. “No estudo, avaliamos diversas amostras dos bebês após o nascimento e, primeiramente, o mecônio. Diferentemente de outras amostras analisadas dos bebês, não vimos semelhança da microbiota da mãe em relação à microbiota do mecônio, indicando que a microbiota da mãe não passa para o mecônio”, relata o cientista. Todas as outras microbiotas avaliadas se pareciam muito mais com a microbiota vaginal, indicando que a microbiota da faringe, do swab retal e do sangue umbilical dos bebês está muito mais associada com o trabalho de parto. Portanto, se o mecônio indica que não é afetado pelo trabalho de parto, a comunidade bacteriana encontrada no mecônio é completamente selada de qualquer interferência, podendo ser utilizada como preditor de contaminação do líquido amniótico durante a gestação.
Conexão
As microbiotas vaginal e intestinal são ecossistemas microbianos distintos, mas conectados pelo eixo intestino-vagina. Enquanto a microbiota vaginal cria um pH ácido, o ambiente intestinal é menos ácido e permite que certas bactérias nocivas ao ambiente vaginal estejam ativas. Assim, muitas das bactérias que causam um problema, ou estão relacionadas ao maior risco, são comuns no intestino – como a Escherichia coli. Portanto, haveria uma contaminação cruzada. “Isso foi um dos problemas que identificamos. Quando o antibiótico é administrado para a gestante manter o feto seguro por mais tempo, a microbiota vaginal acaba entrando em disbiose, rompendo a comunidade bacteriana vaginal saudável e dando suporte para que aquela bactéria intestinal que estava controlada fique fora de controle”, enfatiza. E, muitas vezes, essa é a bactéria que consegue evitar o ataque do antibiótico, porque tem resistência ou porque o medicamento utilizado não era adequado para aquele microrganismo.

