A idade cronológica nem sempre acompanha o ritmo de envelhecimento do organismo. Uma das formas de investigar essas diferenças é por meio dos relógios epigenéticos, ferramentas baseadas em alterações químicas no DNA que ajudam a estimar a idade biológica e outros aspectos relacionados à saúde. Recentemente, um estudo internacional avaliou diferentes relógios epigenéticos e sua associação com doenças incidentes e mortalidade. Os resultados mostraram que os modelos de segunda e terceira geração apresentam maior potencial para avaliar o risco de doenças, especialmente respiratórias e hepáticas.
De acordo com o estudo, os primeiros relógios epigenéticos foram desenvolvidos principalmente para estimar a idade cronológica a partir de padrões de metilação do DNA. Essas ferramentas ajudaram a demonstrar que alterações epigenéticas acumuladas ao longo da vida podem refletir diferenças no ritmo de envelhecimento entre pessoas da mesma idade. Com o avanço das pesquisas, novos modelos passaram a incorporar informações sobre saúde, ritmo de envelhecimento e risco de doenças, ampliando as possibilidades de aplicação.
Para comparar o desempenho dessas diferentes ferramentas, os pesquisadores realizaram uma análise em larga escala – considerada um dos diferenciais do trabalho. Foram avaliados, de forma padronizada, 14 relógios epigenéticos amplamente utilizados como preditores de 174 desfechos de doenças incidentes, em 18.859 pessoas acompanhadas por 10 anos. O estudo também considerou a mortalidade por todas as causas e fatores relacionados ao estilo de vida e às condições socioeconômicas nos modelos estatísticos.
Achados
Ao analisar os dados, os pesquisadores observaram diferenças importantes entre as gerações de relógios epigenéticos. “Os modelos de segunda e terceira geração tiveram desempenho superior aos de primeira, que apresentaram aplicações mais limitadas na avaliação de doenças”, descrevem os autores. Além disso, as associações permaneceram significativas mesmo após o ajuste dos resultados para fatores relacionados ao estilo de vida e às condições socioeconômicas.
Entre os resultados, 176 associações permaneceram estatisticamente significativas após a correção para múltiplas comparações. Em 27 doenças, incluindo câncer de pulmão primário e diabetes, a associação com determinados relógios epigenéticos foi mais forte do que a observada com a mortalidade por todas as causas. Os pesquisadores também avaliaram se a inclusão dos relógios poderia melhorar modelos tradicionais de avaliação de risco. “Em 32 dos 176 achados, a medida de envelhecimento biológico aumentou em mais de 1% a precisão da classificação, em relação aos modelos baseados apenas em fatores de risco tradicionais”, comentam.
A evolução dos relógios epigenéticos ajuda a explicar as associações mais consistentes observadas no estudo com doenças futuras, especialmente respiratórias e hepáticas. Ainda assim, os autores destacam que os resultados não significam que essas ferramentas sejam capazes de diagnosticar ou prever individualmente uma doença, mas indicam seu potencial para complementar os modelos tradicionais de avaliação de risco.
Potencial para a medicina preventiva
A possibilidade de identificar diferenças entre a idade cronológica e o envelhecimento biológico desperta interesse por ajudar a compreender por que pessoas com a mesma idade apresentam riscos diferentes para determinadas doenças. Nesse contexto, os relógios epigenéticos podem funcionar como ferramentas complementares para investigar processos associados ao envelhecimento e, futuramente, aprimorar modelos de estratificação de risco. “Apesar dos achados importantes, novas pesquisas são necessárias para determinar como essas ferramentas podem ser incorporadas à prática clínica”, concluem os autores. O artigo ‘An unbiased comparison of 14 epigenetic clocks in relation to 174 incident disease outcomes’ foi publicado em dezembro de 2025 na revista Nature Communications – doi: 10.1038/s41467-025-66106-y.

