O principal tratamento é a exclusão do alimento responsável pela reação, com acompanhamento especializado para evitar restrições desnecessárias. No entanto, o cuidado não se limita à dieta. “Para garantir a segurança da criança no dia a dia é fundamental que pais, cuidadores e demais responsáveis recebam orientação quanto à leitura adequada dos rótulos dos alimentos, às medidas de prevenção da contaminação cruzada e a um plano de ação individualizado para o reconhecimento e o manejo de exposições acidentais”, recomenda a alergista e imunologista pediátrica Larissa Lima Henriques de Albuquerque. Esse plano deve contemplar o tratamento precoce das reações alérgicas e, quando indicado, o uso imediato da adrenalina autoinjetável nos casos de suspeita de anafilaxia. O acompanhamento especializado também permite avaliar a evolução de cada paciente, orientar a reintrodução quando houver indicação e adaptar a alimentação de acordo com a resposta clínica, preservando o crescimento, o estado nutricional e a qualidade de vida da criança.
Além da exclusão do alimento, a médica Jackeline Motta Franco destaca que novas estratégias terapêuticas vêm sendo utilizadas em casos selecionados. Uma delas é a introdução gradual de alimentos termicamente processados, como preparações contendo leite ou ovo assado, indicada conforme a avaliação médica. Outro avanço é a imunoterapia, que deve ser realizada assim que o diagnóstico se confirme. “Realizada em centros especializados, consiste na oferta de doses progressivas e controladas do alimento para promover a dessensibilização do sistema imunológico”, detalha. Em 2024, a agência regulatória norte-americana Food and Drug Administration (FDA) aprovou, nos Estados Unidos, o uso do imunobiológico omalizumabe para reduzir o risco de reações com alergia alimentar mediada por IgE. Entretanto, essa indicação não está disponível pelo SUS para tratamento da alergia alimentar.
De acordo com a médica Ana Paula Beltran Moschione Castro, um dos principais desafios no manejo da alergia alimentar no Brasil é a indisponibilidade da adrenalina autoinjetável. “Considerado essencial para o atendimento da anafilaxia, o dispositivo é recomendado para pacientes com alergias alimentares mediadas por IgE e permite a administração imediata da medicação em emergências”, observa. Utilizado em diversos países, o dispositivo ainda não é comercializado nacionalmente, obrigando muitas famílias a recorrer à importação – com custos elevados e entraves burocráticos. Portanto, ampliar o acesso a esse recurso é fundamental para salvar vidas, uma vez que a administração precoce da adrenalina é determinante para o controle da anafilaxia.
Embora parte das crianças adquira tolerância ao longo dos anos, as especialistas enfatizam que a evolução da alergia alimentar depende do alimento envolvido, do tipo de reação apresentada e das características individuais de cada paciente. A avaliação periódica permite acompanhar a resposta ao tratamento, definir o momento adequado para possíveis reintroduções alimentares e evitar restrições prolongadas e desnecessárias, que podem comprometer o crescimento e o estado nutricional. Dessa forma, o cuidado individualizado é essencial para equilibrar a prevenção de novas reações com a preservação da autonomia, do desenvolvimento e da qualidade de vida da criança ao longo da infância. •

