Selo de 25 ano - Revista Super Saudável
Morte encefálica

• Conteúdos Semanais | Espaço Aberto

A importância de compreender a morte encefálica

Escrito por: Elessandra Asevedo

Há uma grande confusão entre coma e morte encefálica, mas são situações distintas. A morte encefálica é a perda completa e irreversível das funções do cérebro e do tronco encefálico. Isso significa que o paciente não tem reflexos neurológicos, não respira por conta própria e não apresenta qualquer atividade cerebral – mesmo que aparelhos mantenham o coração batendo e o corpo aquecido. O coma, por outro lado, é um estado grave, mas potencialmente reversível.

No Brasil, o diagnóstico de morte encefálica é feito seguindo critérios rígidos estabelecidos pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela legislação federal. Todo o processo é feito com base em protocolos científicos, éticos e legais. “Os profissionais envolvidos são treinados e agem com responsabilidade e empatia”, explica o médico neurocirurgião Denildo Veríssimo, especialista em doenças do crânio, coluna e técnicas minimamente invasivas.

Em casos de suspeita de morte encefálica, não há espaço para erro ou precipitação. Por isso, são necessárias avaliações clínicas realizadas por dois médicos especialistas independentes, teste de apneia e exame complementar – eletroencefalograma ou doppler transcraniano – sempre com protocolos claros que asseguram precisão e transparência.

“Sabemos que esse é um dos momentos mais difíceis para qualquer família. Ver um corpo ainda aquecido, com batimentos cardíacos, traz a sensação de que existe chance de recuperação. Mas a morte encefálica é irreversível”, resume o médico. Quando compreendida de forma clara, entretanto, pode transformar a dor em um gesto de amor e solidariedade, permitindo que a vida continue por meio da doação de órgãos.

Compreender para doar

A morte encefálica é a única situação em que a doação de múltiplos órgãos, como coração, fígado, rins, pâncreas e pulmões, é viável. Isso porque os órgãos continuam irrigados e oxigenados por um curto período, graças ao suporte da ventilação mecânica e dos cuidados intensivos. “Compreender que a morte encefálica é, de fato, morte e não uma etapa do coma, é fundamental para a tomada de decisão na doação de órgãos consciente e solidária”, acredita o médico.

O médico Denildo Veríssimo afirma que, de acordo com o Ministério da Saúde, em 2021 o Brasil registrou mais de 5.800 notificações de morte encefálica. Dessas, apenas 1.451 resultaram em doadores efetivos por causa da confusão entre as duas situações. A taxa de recusa familiar, que ultrapassa 40%, ainda é um dos maiores obstáculos.

“Isso significa que ampliar a informação é tão importante quanto garantir o suporte médico. Mais do que um dado técnico, a morte encefálica é um momento delicado que exige acolhimento, escuta e informação”, pontua. E, quando compreendida com clareza, pode se transformar em uma oportunidade de continuidade de vida para outras pessoas.

DIREITOS RESERVADOS ®
Proibida a reprodução total ou parcial sem prévia autorização da Companhia de Imprensa e da Yakult.

• Matérias da Edição

• Mais sobre Conteúdos Semanais