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Uso de antibióticos leva à disbiose intestinal e favorece gravidade

Escrito por: Adenilde Bringel

Embora sejam fundamentais no tratamento da sepse por controlar a carga bacteriana e reduzir a progressão da resposta inflamatória sistêmica – inclusive, a administração precoce está diretamente associada à redução de mortalidade –, os antibióticos também podem interferir no desfecho da sepse de forma indireta ao causar disbiose intestinal. “A alteração da microbiota compromete a produção de metabólitos imunomoduladores, reduz a diversidade bacteriana e pode favorecer a quebra da barreira intestinal e a translocação de patógenos oportunistas ou infecções secundárias”, acrescenta a cientista Ana Carolina Oliveira. Além disso, a disbiose pode impactar na resolução da inflamação, influenciando na incidência de complicações tardias que acometem cerca de 80% dos pacientes que sobrevivem à sepse grave.

Antibióticos de amplo espectro também reduzem drasticamente a diversidade microbiana intestinal, favorecendo o crescimento de patógenos oportunistas, aumentando a permeabilidade intestinal e permitindo a translocação bacteriana para a corrente sanguínea. Esse processo pode desencadear bacteremia e evoluir para sepse, sobretudo em pacientes críticos. Por isso, embora sejam essenciais, os antibióticos também demandam estratégias que preservem ou restaurem a microbiota durante e após o tratamento da sepse. “Atualmente, nossa pesquisa foca justamente nisso. Apostamos que, ao ingerir mais fibras, as bactérias intestinais produzam maior quantidade de ácidos graxos de cadeia curta e isso pode atenuar a disbiose e seus efeitos deletérios, locais e sistêmicos”, sinaliza a pesquisadora.

Uma aposta do grupo de pesquisa é conciliar o uso de antibióticos com prebióticos, como as fibras solúveis – em combinação ou não com probióticos – para mitigar a disbiose e, assim, buscar um melhor prognóstico. Além disso, o uso de probióticos poderia contribuir para a redução do risco de sepse ao atuar principalmente na modulação da microbiota intestinal e da resposta imune, especialmente em pacientes que desenvolvem disbiose associada ao uso de antibióticos.

De acordo com a cientista, o probiótico pode ajudar na recolonização do intestino com microrganismos benéficos, preservando a barreira intestinal através da maior produção de muco, por exemplo, modulando a resposta imunológica e, consequentemente, reduzindo a inflamação exacerbada. “Apesar de promissor, a evidência clínica dos benefícios dos probióticos durante um quadro de sepse ainda é heterogênea e deve ser vista com cautela”, argumenta. Já em pacientes críticos ou imunossuprimidos, o uso deve ser cauteloso devido ao risco raro, porém descrito, de bacteremia ou fungemia associada ao uso de probiótico.

Independentemente disso, a cientista lembra que a microbiota em disbiose é um fator de risco a mais para a sepse, não apenas para as manifestações mais agudas da doença, como o acometimento de rins e pulmões, mas também para os comprometimentos tardios como imunossupressão e prejuízos neurocomportamentais. “Sabe-se que cerca de 80% dos pacientes que sobrevivem à sepse grave apresentarão algum comprometimento tardio até cinco anos após a alta hospitalar”, enfatiza. Infecções oportunistas e tumores devido à imunossupressão, assim como danos neurológicos, estão entre as manifestações mais comuns.

Ao mesmo tempo, os produtos microbianos, especialmente as moléculas derivadas de bactérias da microbiota intestinal, podem exercer papel protetor contra a sepse ao modular a resposta imune do hospedeiro. Um dos exemplos mais estudados é o polissacarídeo A (PSA), componente da cápsula polissacarídica do Bacteroides fragilis. “Diferentemente de componentes bacterianos pró-inflamatórios clássicos, como o lipopolissacarídeo (LPS), o PSA é uma molécula imunomodulatória que promove o equilíbrio entre resposta inflamatória e tolerância imunológica não apenas no intestino, onde essa bactéria habita, mas também sistemicamente”, ensina. Segundo a pesquisadora, a coleção de produtos derivados do metabolismo do microbioma intestinal, conhecido como metaboloma, é um campo riquíssimo ainda a ser explorado no cenário da sepse. •

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