O diagnóstico de sepse em adultos inclui a presença de uma infecção suspeita ou confirmada que esteja acompanhada de pelo menos uma disfunção orgânica ameaçadora à vida. Do ponto de vista epidemiológico, define-se disfunção pelo aumento de dois pontos ou mais no escore Sequential Organ Failure Assessment (SOFA), englobando os sistemas respiratório (oxigenação), cardiovascular (pressão arterial média ou uso de vasopressores), hepático (níveis de bilirrubina), hematológico (contagem de plaquetas/coagulação), renal (níveis de creatinina ou débito urinário) e neurológico (Escala de Coma de Glasgow). “Entretanto, essa pontuação não deve ser usada à beira leito para identificação de pacientes com sepse, sendo mais útil para avaliações epidemiológicas e para pesquisas clínicas”, afirma a intensivista Flavia Machado. Do ponto de vista prático, as equipes de saúde devem ser treinadas a suspeitar de sepse utilizando ferramentas para detecção de deterioração clínica como os scores National Early Warning Score (NEWS) ou Modified Early Warning Score (MEWS) ou mesmo com a presença dos critérios de Síndrome de Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS) e/ou disfunções orgânicas.
Uma vez diagnosticada, condutas que visam a estabilização do paciente são prioritárias, a começar pela internação imediata – idealmente na UTI. A intensivista informa que o pacote de primeira hora (‘Bundle’ de uma hora) da sepse consiste na coleta de exames laboratoriais como gasometria, lactato arterial (marcador de hipoperfusão tecidual), hemograma completo, creatinina, bilirrubina e coagulograma para avaliar a gravidade da disfunção orgânica. “Além disso, é fundamental a rápida administração de antibióticos de amplo espectro e fluidos intravenosos para estabilizar a pressão arterial e melhorar a oxigenação dos tecidos. Caso os fluidos sejam insuficientes, são administrados vasopressores para contrair os vasos sanguíneos e aumentar a pressão arterial”, descreve. A depender do caso, o controle do foco pode ser necessário, com remoção de cateteres caso sejam a origem do quadro infeccioso, ou cirurgias. A especialista comenta que quando a sepse é nosocomial o tratamento é mais complexo e exige cuidados adicionais, pois o paciente que já se encontra com a saúde fragilizada tem de lidar com bactérias mais agressivas e resistentes aos antibióticos comuns.
Baseada no cuidado integral, a equipe multidisciplinar tem papel determinante em todo o processo dessa disfunção orgânica ameaçadora à vida, desde o diagnóstico e a internação até a alta hospitalar. A equipe é responsável, ainda, pelo monitoramento (lactato e suporte hemodinâmico), controle de infecção, prevenção da disfunção de múltiplos órgãos, nutrição terapêutica, reabilitação física, cognitiva e de saúde mental. Segundo a médica intensivista Flavia Machado, certos cuidados adicionais contribuem para a prevenção de sequelas. “Sempre que possível, recomenda-se reduzir o tempo de dispositivos invasivos para evitar complicações mecânicas e infecciosas, a exemplo de pneumonia associada à ventilação mecânica, infecção de corrente sanguínea via cateter venoso central e infecção do trato urinário relacionado a cateter vesical de demora”, relata. Além disso, ações como redução de sedação, controle da dor, manutenção do ciclo sono-vigília, uso de óculos ou aparelho auditivo e mobilização precoce podem ajudar significativamente o paciente durante o processo de recuperação e permanência em UTI.
Desafiadora
O reconhecimento precoce é o maior desafio clínico para o manejo da sepse, independentemente da faixa etária. A pediatra Daniela Carla Souza, presidente do ILAS e médica assistente da UTI Pediátrica do Hospital Universitário da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HU-FMUSP) e do Hospital Sírio Libanês, acentua que o treinamento e a educação continuada das equipes nas unidades de saúde, especialmente emergências e UTI, são essenciais para o maior conhecimento da síndrome.
Assim, conhecer a epidemiologia, fisiopatogenia, abordagem terapêutica, as terapias de suporte e a reabilitação para a identificação da disfunção orgânica inicial vai permitir a agilidade de diagnóstico e o tratamento adequado. “Ao atualizar os profissionais da área desde a atenção básica sobre práticas e protocolos baseados em evidências e diretrizes recentes, conseguimos melhorar a segurança do paciente, reduzir o risco de agravos – especialmente o choque séptico – e, consequentemente, a alta mortalidade”, enfatiza a presidente do ILAS.

