Descrita como um problema de saúde pública, a paracoccidioidomicose (PCM) é uma micose sistêmica adquirida por fungos presentes no solo. Negligenciada e endêmica na América Latina, especialmente no Brasil, essa infecção afeta principalmente trabalhadores rurais. Silenciosa e de evolução lenta, a doença pode se manifestar de forma crônica e comprometer pulmões, pele e outros órgãos. Apesar de o tratamento ser eficaz e com possibilidade de cura, o diagnóstico tardio pode levar a sequelas permanentes.
Transmitida principalmente pela inalação de partículas de poeira contaminada presentes no solo, a PCM está associada a atividades como agricultura, terraplenagem, abertura de estradas, jardinagem e transporte de produtos vegetais. Uma vez no organismo, o fungo do gênero Paracoccidioides não se restringe aos pulmões. “Ao se disseminar pela corrente sanguínea pode atingir pele, mucosas, sistema linfático, glândulas suprarrenais e até o sistema nervoso central”, destaca o patologista clínico Guilherme Ferreira de Oliveira. Além disso, a infecção desorganiza o sistema imunológico e pode provocar inflamação crônica, levando à fibrose.
Diagnóstico tardio
Por ter evolução lenta e silenciosa, assim como sintomas que se assemelham com outras condições (a exemplo da tuberculose), a identificação desta micose sistêmica adquirida costuma ser tardia. E isso contribui para erros ou atrasos na condução clínica. De acordo com o especialista, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), sinais como tosse, perda de peso e lesões na boca são indicativos importantes. “A confirmação ocorre pela identificação do fungo em exames de escarro ou biópsia. Complementarmente, exames sorológicos ou de imagem podem ser solicitados para verificar a extensão da doença”, explica.
Tratamento eficiente
O tratamento dessa micose sistêmica é longo e não admite interrupções. Casos leves podem ser tratados com antifúngicos orais, como o itraconazol, enquanto os quadros graves exigem internação e uso de anfotericina B por via endovenosa. O médico informa que a terapia pode durar de nove a 24 meses e a suspensão precoce aumenta significativamente o risco de recidiva e agravamento das sequelas.
“Em muitos casos, os pacientes precisam de acompanhamento prolongado com fisioterapia respiratória ou reposição hormonal por toda a vida”, observa. Atualmente, não há vacina nem medidas de controle ambiental efetivas contra a ação da paracoccidioidomicose. Portanto, o foco deve ser o diagnóstico precoce e o tratamento adequado.
Cenário nacional
Embora esteja na lista nacional de doenças relacionadas ao trabalho (quando associada à atividade laboral, como agricultura), essa micose sistêmica não é uma enfermidade de notificação compulsória obrigatória em todos os casos. Historicamente concentrada nas regiões Sudeste e Sul, a PCM tem avançado para o Norte e o Centro-Oeste, acompanhando a expansão de fronteiras agrícolas e grandes obras. “Trabalhadores rurais e populações com menor acesso à informação, proteção respiratória e serviços de saúde seguem sendo os mais afetados, muitas vezes descobrindo a doença já em fase avançada”, detalha o especialista.

