O mecônio é a primeira evacuação do recém-nascido, caracterizada por ser uma substância espessa, pegajosa e de cor verde-escura ou preta. Formado no final do período – quando o bebê ingere líquido amniótico, células da pele, muco e bile acumulada no intestino durante a gestação –, geralmente é expelido nas primeiras 24 a 72 horas de vida. Estudos mostram que o mecônio é menos diversificado em recém-nascidos que desenvolverão infecção. Portanto, as evidências sugerem que a falta de colonização por bactérias não patogênicas facilita a colonização por microrganismos patogênicos e, consequentemente, aumenta o risco de doenças infecciosas. Além disso, o uso prolongado de antibióticos pela mãe e pelo recém-nascido, a demora em iniciar a dieta enteral e a instabilidade hemodinâmica dos prematuros tende a provocar uma redução da diversidade microbiana, prejudicando a integridade da barreira mucosa intestinal e aumentando o risco de infecções como a sepse neonatal precoce.
Um estudo desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) determinou a microbiota intestinal do primeiro mecônio de recém-nascidos prematuros com idade gestacional igual ou inferior a 32 semanas para verificar sua associação com sepse neonatal precoce clínica. Como o mecônio não é estéril, o foco da pesquisa era buscar uma melhor compreensão do padrão inicial de colonização da microbiota intestinal em recém-nascidos prematuros para avaliar se poderia ser uma ferramenta útil para melhorar o diagnóstico e o tratamento da sepse neonatal precoce. Conduzido pela médica neonatologista Laura Vargas Dornelles sob orientação dos professores Rita de Cássia dos Santos Silveira e Renato Solbelmann Procianoy, o estudo ‘A microbiota do mecônio como um preditor de sepse neonatal precoce clínica em recém-nascidos prematuros’ foi o tema de sua dissertação de mestrado na Unidade de Neonatologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) da UFRGS.
A médica explica que a sepse neonatal precoce ocorre nas primeiras 72 horas de vida do bebê e que o diagnóstico padrão-ouro da infecção é a hemocultura. Porém, a taxa de positividade da hemocultura é muito baixa na sepse precoce, uma vez que a infecção confirmada pelo método ocorre em menos de 1% de todas as admissões neonatais. Dentre os casos confirmados, a literatura mostra que há cerca de 10% de mortalidade. “O diagnóstico precoce é um grande desafio, principalmente no prematuro, devido à potencial gravidade da sepse associada à apresentação clínica inespecífica”, resume. Dentre os fatores de risco estão bolsa rota por mais de 18h, trabalho de parto prematuro sem outra causa, febre materna ou diagnóstico confirmado de corioamnionite. Devido a essa dificuldade de fazer diagnóstico é que surgiu o interesse em analisar o mecônio de prematuros com idade gestacional ≤32 semanas.
“Queríamos entender se existe diferença entre o mecônio do bebê que teve sepse precoce e daquele que não teve”, acentua a médica Laura Vargas Dornelles. Assim, foi desenvolvido um estudo de coorte prospectivo controlado por meio da análise da primeira evacuação de 84 prematuros nascidos no Hospital de Clínicas de Porto Alegre – 40 com sepse e 44 sem o problema (grupo controle). O resultado mostrou que o filo mais abundante encontrado no mecônio nos dois grupos foi Proteobacteria, que era mais prevalente no grupo sepse. Outros gêneros bacterianos mais associados ao grupo sepse foram Paenibacillus, Caulobacter, Dialister, Akkermansia, Phenylobacterium, Propionibacterium, Ruminococcus, Bradyrhizobium e Alloprevotella, enquanto no grupo controle era o Flavobacterium.
“Os achados indicam que a microbiota do primeiro mecônio de recém-nascidos prematuros realmente é diferente quando há o diagnóstico de sepse neonatal precoce clínica”, afirma. Segundo a médica, a identificação de comunidades bacterianas específicas de risco poderia levar ao desenvolvimento de biomarcadores alternativos para o diagnóstico precoce do problema. Entretanto, a aplicabilidade clínica da avaliação da microbiota ainda é bastante complicada e desafiadora, porque o bebê prematuro pode levar mais de 72 horas para eliminar o primeiro mecônio, o que inviabiliza seu uso para o diagnóstico de sepse precoce. Esta condição está muito relacionada ao ambiente intraútero, ao momento do nascimento, ao tempo de ruptura da bolsa e a outros fatores, como mãe internada em ambiente hospitalar.
Microbiota materna
A neonatologista lembra que é sempre importante orientar as gestantes a adquirirem hábitos saudáveis, incluindo uma alimentação balanceada, diversificada e com alimentos provenientes da natureza. “Sabemos que existe um equilíbrio entre os microrganismos presentes na microbiota intestinal, enquanto seu desequilíbrio está associado a um possível aumento das bactérias patogênicas presentes neste ambiente. E isso pode levar à infecção local ou à distância”, sinaliza. O artigo foi parte de um amplo estudo de análise de microbiota desenvolvido na UFRGS e no HCPA, composto de vários braços e que inclui, por exemplo, análise de fezes dos recém-nascidos e alimentação com leite materno e uso de fórmula.

