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Resistência aos antimicrobianos

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Uso correto de antibióticos é um desafio global

Escrito por: Elessandra Asevedo

Atualmente, a resistência aos antimicrobianos (RAM) é um dos maiores desafios de saúde pública por afetar a saúde humana, animal e ambiental, além da segurança alimentar. De acordo com o Ministério da Saúde, se não houver mais investimentos na prevenção e no controle desse problema, até 2035 a expectativa de vida global pode ser reduzida em até 1,8 ano – chegando a 2,3 anos nos países de baixa e média renda das Américas. A RAM é diretamente responsável por 1,27 milhão de mortes anuais e contribui para outros 4,95 milhões de óbitos, tornando-se uma das 10 principais causas de óbitos no mundo. No Brasil, são registradas mais de 33 mil mortes diretas e 137,9 mil associadas à RAM por ano. Estimativas oficiais indicam que, se não houver mudanças significativas, os óbitos relacionados à resistência aos antimicrobianos no País podem chegar a 39 milhões até 2050.

Os antimicrobianos atuam contra diferentes tipos de microrganismos, incluindo bactérias, vírus, fungos e protozoários, e possuem ampla aplicação na saúde humana, animal e na agricultura. Os antibióticos, amplamente conhecidos pela população, são uma classe específica de antimicrobianos e atuam exclusivamente contra bactérias. Neste caso, podem ser produzidos por microrganismos, como fungos do gênero Penicillium, ou sintetizados quimicamente. Esses medicamentos, que não têm efeito contra vírus, fungos ou protozoários, são indicados apenas para infecções bacterianas. “O uso inadequado de antibióticos é um dos principais fatores que contribuem para a resistência aos antimicrobianos”, alerta a médica infectologista Ana Gales, professora associada e pesquisadora da Disciplina de Infectologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), vice-coordenadora do Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (ARIES) e integrante do Subcomitê de Resistência aos Antimicrobianos da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Qualisa de Gestão (IQG) em 104 unidades de saúde públicas e privadas acendeu um alerta sobre o uso inadequado de antibióticos no Brasil. O estudo divulgado em 2025 mostra que o excesso ou a utilização ineficaz desses medicamentos contribui diretamente para o aumento de infecções causadas por bactérias resistentes. Entre os hospitais analisados, 87,7% utilizavam antibióticos de forma empírica, ou seja, os médicos prescreviam medicamentos e dosagens enquanto aguardavam a confirmação laboratorial. A análise do IQG avaliou três dimensões: o conhecimento dos profissionais, as práticas adotadas no dia a dia e o ambiente em que essas decisões ocorrem.

O levantamento revelou, ainda, fragilidades importantes na gestão hospitalar, com cerca de 21% das instituições sem protocolos para ajuste de dose ou escalonamento do uso de antimicrobianos. A pesquisa também identificou a ausência de protocolos para descarte e análise de efluentes hospitalares, o que amplia os riscos de contaminação ambiental e favorece a disseminação da resistência bacteriana. De acordo com a presidente do IQG, Mara Machado, os resultados mostram um cenário contraditório. “Embora existam profissionais capacitados e protocolos estabelecidos, o sistema falha em garantir que essas práticas sejam efetivamente aplicadas de maneira contínua e estruturada”, acentua.

Outro dado preocupante da pesquisa é o desconhecimento dos impactos econômicos provocados pela resistência aos antimicrobianos por parte de diretores hospitalares. Para Mara Machado, mais do que criar protocolos novos, os hospitais precisam reorganizar a forma como o cuidado é ofertado e incorporar a resistência aos antimicrobianos à governança institucional como agenda estratégica. “A RAM, em parte, é financiada pelo modelo de pagamento. Logo, não adianta falar em uso racional em um sistema que remunera consumo. Enquanto pagar pelo volume, o desperdício será estrutural e não individual. Se quisermos enfrentar essa questão, precisamos parar de olhar apenas para o antibiótico e começar a olhar como o cuidado é organizado, decidido e sustentado dentro das instituições”, alerta.

Riscos de complicações

O uso indiscriminado de antibióticos tem levado ao surgimento de bactérias altamente resistentes, tornando os medicamentos menos eficazes e aumentando o risco de complicações graves. Infecções tratadas com antibióticos se tornaram mais difíceis de solucionar, a exemplo de infecções urinárias, pneumonias ou feridas que podem agravar se os medicamentos que costumavam funcionar não tiverem mais efeito. “A resistência aos antimicrobianos também afeta a segurança de procedimentos médicos e cirúrgicos, trazendo consequências significativas para o sistema de saúde”, reforça a infectologista Ana Gales. Esse cenário também pode comprometer tratamentos importantes, como quimioterapia e transplantes – nos quais o controle de infecções é essencial. Ademais, o tempo de recuperação pode ficar maior e exigir medicamentos mais fortes e caros. Além disso, há maior risco de pacientes internados contraírem infecções resistentes mais difíceis de controlar, especialmente os que passaram por cirurgias.

O uso indevido de antimicrobianos pode ser observado quando há prescrição excessiva de antibióticos ou uso de antibióticos para doenças virais, automedicação, interrupção precoce dos tratamentos e compartilhamento de medicamentos sem prescrição. Os pacientes também devem seguir corretamente a dose, o horário e o tempo de tratamento indicados. Outro cuidado importante é fazer o descarte adequado de medicamentos vencidos ou sobras em pontos de coleta específicos em farmácias e postos de saúde, evitando jogá-los no lixo comum, na pia ou no vaso sanitário para evitar a contaminação do lençol freático e do solo.

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