O escorbuto está descrito desde a Antiguidade, mas tornou-se amplamente reconhecido como uma das doenças mais temidas durante a Era das Grandes Navegações, entre os séculos XV e XVIII, quando navios cruzavam oceanos em longas jornadas sem acesso a alimentos frescos. Provocado pela deficiência de vitamina C, o mal afetava marinheiros submetidos a dietas baseadas em biscoitos secos, carne salgada e água armazenada, levando a sintomas como fraqueza extrema, sangramentos nas gengivas, perda de dentes e, frequentemente, à morte. Durante séculos, o escorbuto representou um inimigo invisível a bordo, causando mais baixas do que as batalhas ou tempestades. Entretanto, a conexão entre o consumo de frutas cítricas e a prevenção do escorbuto foi demonstrada apenas no século XVIII pelo médico naval escocês James Lind, da Marinha Real Britânica, pioneiro da higiene naval e responsável pelo primeiro ensaio clínico controlado em 1747.
“Desta maneira, a relação direta entre o consumo de frutas cítricas e a prevenção do escorbuto configurou um marco inicial da nutrição baseada em evidências”, pontua a médica nutróloga Isolda Prado, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e professora de Nutrologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Atualmente, o escorbuto é considerado uma doença rara. No entanto, pode ocorrer em alguns grupos específicos como idosos, que têm problema de absorção e limitação para consumir alimentos.
Indivíduos que não conseguem ter acesso a alimentos frescos ou com dietas restritivas, como em situação de rua ou em privação de liberdade, também são alvo da enfermidade, assim como aqueles que têm alto consumo de álcool e são dependentes de drogas. Pessoas que fumam também podem sofrer com o escorbuto porque o tabagismo reduz a absorção de vitamina C, assim como os pacientes oncológicos, que têm problemas no trato digestório, pessoas que tenham feito cirurgia bariátrica e celíacos. “Raramente temos esses casos no Brasil, pois existem muitas frutas por toda extensão continental que são fontes de vitamina C”, tranquiliza a nutricionista Fabiana Poltronieri, diretora da Associação Brasileira de Nutrição (Asbran) e docente da Unicesusc.
Os primeiros sintomas do escorbuto costumam ser inespecíficos e incluem fadiga, fraqueza, irritabilidade, dor muscular e articular. Com a progressão da deficiência podem surgir manifestações hemorrágicas, anemia, edema, dor óssea e maior suscetibilidade a infecções. Ademais, podem ser observados fragilidade capilar, petéquias, equimoses, sangramentos nas gengivas, edema, má cicatrização e alterações cutâneas como pele seca e hiperqueratose folicular. “As gengivas tornam-se inflamadas, dolorosas e sangrentas, podendo haver mobilidade dentária em casos mais avançados. Vasos sanguíneos fragilizados favorecem hemorragias espontâneas, especialmente em membros inferiores”, acentua a nutróloga Isolda Prado.
Essencial
A vitamina C, ou ácido ascórbico, é um nutriente essencial para o bom funcionamento do organismo, desempenhando diversas funções importantes. Por exemplo, atua como antioxidante ajudando a combater os radicais livres e protegendo as células contra danos, o que contribui para a prevenção do envelhecimento precoce e de algumas doenças. “Um dos papéis mais conhecidos está na produção de colágeno, uma proteína fundamental para a estrutura de pele, ossos, cartilagens, tendões e vasos sanguíneos”, explica a nutricionista Fabiana Poltronieri.
A presença adequada dessa vitamina também é necessária para a síntese do colágeno, favorecendo a firmeza da pele, cicatrização de feridas e manutenção das articulações. Esse é o motivo de, na deficiência do ácido ascórbico, as manifestações cutâneas serem as mais percebidas. Além disso, a vitamina C fortalece o sistema imunológico, auxilia na absorção do ferro de origem vegetal e contribui para a saúde cardiovascular. Essa vitamina pode ser encontrada em alimentos como laranja, limão, acerola, kiwi, morango, goiaba, brócolis e pimentão.

