A doença de Alzheimer tem sido historicamente associada ao acúmulo de duas proteínas no cérebro – beta-amiloide e tau –, frequentemente consideradas as principais responsáveis pelo desenvolvimento da enfermidade. No entanto, observações clínicas ao longo dos anos fizeram pesquisadores levantarem um questionamento importante para entender o motivo de algumas pessoas apresentarem acúmulo dessas proteínas, principalmente a beta-amiloide e, ainda assim, não desenvolverem os sintomas da doença. Essa inconsistência sugere que outros fatores desempenham um papel crucial na progressão da enfermidade.
A partir dessa lacuna, uma grande colaboração entre pesquisadores brasileiros, canadenses, norte-americanos e suecos investigou mecanismos adicionais que pudessem explicar melhor o desenvolvimento da doença. Nesse contexto, surgiu a hipótese da neuroinflamação como um elemento determinante para o Alzheimer. De acordo com o médico e doutor João Pedro Ferrari-Souza, primeiro autor do artigo e pesquisador da Unidade de Neurociência do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, diferentemente da inflamação tradicional, percebida em outras partes do corpo com sinais evidentes, a neuroinflamação ocorre de forma silenciosa no cérebro. “Esse tipo de inflamação cerebral envolve principalmente dois tipos celulares fundamentais, os astrócitos, responsáveis por funções de suporte e proteção, e a micróglia, que atua como sistema de defesa do sistema nervoso central”, explica.
Publicado na prestigiada revista científica Nature Neuroscience, o estudo teve como principal objetivo verificar se essa inflamação cerebral poderia ser o fator que conecta o acúmulo de proteínas ao surgimento efetivo da doença. Para isso, os responsáveis se basearam em evidências prévias obtidas em experimentos com animais e em estudos in vitro, mas buscaram avançar ao demonstrar esse fenômeno diretamente em seres humanos, durante a vida, para a validação clínica.
A pesquisa envolveu mais de 300 participantes, dos Estados Unidos e do Canadá, e utilizou tecnologias avançadas como exames de imagem molecular (PET), capazes de mapear alterações cerebrais associadas ao Alzheimer. Além disso, foram realizadas análises de sangue e do líquido cefalorraquidiano, que envolve o cérebro e a medula espinhal, permitindo a medição direta de substâncias relacionadas ao funcionamento cerebral. Essas abordagens possibilitaram uma avaliação ampla e simultânea de diferentes marcadores biológicos nos mesmos indivíduos.
Os resultados revelaram que o acúmulo da proteína beta-amiloide, isoladamente, não é suficiente para desencadear a doença. O fator decisivo parece ser a interação desregulada entre astrócitos e micróglia, caracterizando um processo de neuroinflamação disfuncional. Neste cenário, a presença dessa inflamação atua como um gatilho que permite que o amiloide induza o acúmulo da proteína tau. Esta, por sua vez, está diretamente associada aos sintomas clínicos do Alzheimer, como a perda de memória. “Essa descoberta representa um avanço significativo, pois fornece evidências clínicas, em humanos, de um processo que até então era majoritariamente observado em modelos experimentais. Mais do que isso, amplia a compreensão da doença ao demonstrar que não se trata apenas de depósitos proteicos, mas de uma complexa interação entre fatores biológicos”, pontua o pesquisador.
Do ponto de vista prático, os achados não alteram imediatamente os métodos de diagnóstico, mas abrem novas possibilidades terapêuticas. Atualmente, já existem tratamentos que visam reduzir o acúmulo de beta-amiloide no cérebro, apresentando efeitos moderados na desaceleração da progressão da doença. Por outro lado, tentativas anteriores de tratar o Alzheimer com anti-inflamatórios não tiveram sucesso significativo. A principal contribuição do estudo está justamente na proposta de uma abordagem combinada. Assim, ao invés de tratar isoladamente o acúmulo de proteínas ou a inflamação do cérebro, a ideia é atuar simultaneamente em ambos os processos. De acordo com o pesquisador, isso pode potencializar os efeitos terapêuticos e levar a avanços mais expressivos no controle da doença.
Próximos passos
Futuramente, a ideia é tentar replicar esse resultado em outras populações, pois sabe-se que o cérebro do brasileiro é diferente do norte-americano, que também difere do cérebro da população europeia. “É importante verificar se há o mesmo padrão ou se algum fenômeno muda em um aspecto específico, porque hoje sabemos que cada vez mais as populações têm padrões muito diferentes na forma como uma doença se expressa e progride”, reforça o pesquisador. Outro ponto fundamental é entender se o estilo de vida está relacionado, por meio da neuroinflamação, com o risco à demência, especificamente aquela causada pela doença de Alzheimer. O pesquisador João Pedro Ferrari-Souza lembra que a atividade física, a alimentação e a qualidade do sono são fatores relacionados com uma certa inflamação do organismo humano, ampliando as possibilidades não apenas de tratamento, mas de prevenção da doença de Alzheimer. •

