A dermatite atópica (DA) é uma doença de pele inflamatória crônica, não contagiosa e de origem multifatorial que se manifesta clinicamente a partir do aparecimento de lesões cutâneas (eczemas) e ressecamento da pele, acompanhados de prurido intenso – esse último descrito como o sintoma mais marcante. A condição afeta de 15% a 20% das crianças e entre 3% e 7% dos adultos. A DA é considerada uma doença de base genética, em que indivíduos com histórico familiar de doenças inflamatórias, como asma e rinite alérgica, têm maior probabilidade de desenvolvê-la. Com impacto profundo na qualidade de vida, a DA pode levar a problemas secundários como distúrbios de sono, isolamento social e abstenção escolar, demandando cuidado multidisciplinar.
As estimativas indicam que quando um dos pais tem uma condição atópica há 25% de chance de o filho desenvolver a doença. Caso sejam pai e mãe, o risco aumenta para 50%. “Frequentemente, a doença é caracterizada como a primeira manifestação da marcha atópica, uma terminologia usada para descrever uma possível progressão sequencial de doenças alérgicas ao longo da vida do indivíduo com atopia”, informa a médica pediatra Marcia Carvalho Mallozi, coordenadora do Departamento Científico de Dermatite da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), membro da equipe técnica da disciplina de Alergia e Imunologia Clínica do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e professora assistente do Departamento de Pediatria do Centro Universitário da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC).
Fisiopatologicamente, a DA está intimamente ligada à filagrina, uma proteína essencial para a integridade da barreira cutânea. “Mutações genéticas nesse gene levam a uma barreira de pele comprometida, causando perda de água e ressecamento. Quando associada a uma alteração na resposta do sistema imune às substâncias ambientais, como irritantes e alérgenos, ocorre o desenvolvimento da doença”, explica a pediatra Marcia Carvalho Mallozi. A resposta imunológica desempenha papel central neste processo, especialmente pela ativação acentuada dos linfócitos T auxiliares tipo 2 (Th2), predominante nas fases agudas da doença. A especialista acrescenta que essas células promovem a liberação de citocinas como interleucinas IL-4, IL-5 e IL-13, que induzem a produção de imunoglobulina E (IgE), comprometendo a integridade da barreira epidérmica e contribuindo para a manutenção do quadro inflamatório.
A DA pode estar associada, ainda, a um desequilíbrio das microbiotas da pele e do intestino, caracterizado por um ecossistema menos diverso e com predomínio da bactéria Staphylococcus aureus (leia mais na página 10). A médica dermatologista pediátrica Cristina Marta Maria Laczynski, professora afiliada da Disciplina de Dermatologia e responsável pelos Ambulatórios de Dermatite Atópica e Crioterapia do Centro Universitário FMABC, explica que a pele desses pacientes é frequentemente colonizada por S. aureus, com mais de 90% das lesões contendo a bactéria. “Com a barreira cutânea enfraquecida, sua presença intensifica a inflamação e a gravidade da doença, levando a infecções secundárias que podem evoluir para crises graves sem tratamento farmacológico adequado”, descreve.
Crianças
A prevalência da dermatite atópica varia conforme a idade, sendo mais comum no público pediátrico. De acordo com estimativas do Ministério da Saúde, os grupos mais afetados são crianças de 6 a 7 anos (7,3%) e adolescentes de 13 a 14 anos (5,3%). Em cerca de 70% dos casos o início ocorre nos primeiros meses de vida, e em cerca de 7% dos pacientes a dermatite atópica tem início apenas na vida adulta. Em muitas crianças, mesmo que a pele possa permanecer sensível ou seca por mais tempo, os surtos diminuem significativamente com a idade, podendo desaparecer até a adolescência. Entretanto, uma parcela desses pacientes segue com a doença pelo resto da vida com períodos de melhora ou piora. “Nesses casos, o tratamento adequado é fundamental para ampliar o espaço entre uma crise e outra, assim como reduzir a intensidade dos sintomas”, informa o dermatologista Roberto Takaoka, médico assistente da Divisão de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e presidente da Associação de Apoio à Dermatite Atópica (AADA).

