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Leitura mediada de obras literárias

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Livros com prescrição médica

Escrito por: Elessandra Asevedo

Em um mundo marcado pelo excesso de informações e pela conectividade, um ato simples e acessível tem colaborado para a busca do equilíbrio. A leitura, por meio da Biblioterapia, pode despertar emoções, estimular reflexões, fortalecer a empatia e oferecer conforto diante de experiências difíceis. O termo Biblioterapia foi usado pela primeira vez em 1916 pelo escritor norte-americano Samuel McChord Crothers, que entendeu o potencial do livro e da leitura como forma de bem-estar. O mundo vivenciava a primeira guerra mundial e os Estados Unidos perceberam que seria importante criar livros e enviar para os soldados – proposta conhecida como Library War Service. Atualmente, a prática utiliza a leitura mediada de obras literárias como ferramenta de promoção de bem-estar emocional, autoconhecimento e cuidado com a saúde mental de forma individual ou em grupo.

A Biblioterapia possui fundamentos científicos e é possível identificar, na terapia pelos livros, três componentes essenciais: a catarse, a identificação e a introspecção. De acordo com a historiadora e escritora Marisa Midori, professora livre-docente do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), essa prática terapêutica utiliza a literatura como ferramenta para promover bem-estar emocional, autoconhecimento e alívio de sintomas como ansiedade, estresse e depressão. A técnica funciona através da identificação do leitor com personagens e histórias, facilitando a reflexão e o processamento de emoções. “A Biblioterapia começa no âmbito das bibliotecas e profissionais ligados ao mundo da leitura por perceberem que estão fazendo uma espécie de tratamento para a alma”, ressalta.

O escritor Galeno Amorim, professor de Biblioterapia, CEO do Observatório do Livro e ex-presidente da Biblioteca Nacional e do Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e o Caribe da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Cerlalc-Unesco) conta que o sociólogo Antonio Candido costumava afirmar que a literatura tem a capacidade de organizar o caos interno. E a Biblioterapia direciona a leitura mediada de obras literárias para produzir resultado na mudança de comportamento a partir da liberação de emoções. “Ao mergulhar na história, o leitor libera emoção, ou seja, ri, chora, sente indignação, prazer ou se revolta”, acentua. Além disso, ao se identificar com a história, percebe que não está sozinho, pois algumas situações, boas ou ruins, acontecem com outras pessoas também. Dessa forma, estabelece uma relação e um entendimento que ajuda e ressignifica os acontecimentos que incomodam.

A Biblioterapia pode ser aplicada de diferentes formas, dependendo do objetivo e do público atendido. De maneira geral, se divide em Biblioterapia de desenvolvimento e Biblioterapia Clínica. A primeira é voltada à promoção de bem-estar, autoconhecimento e evolução pessoal. Como não é uma prática regulamentada no Brasil e integra o rol das terapias complementares, pode ser aplicada por profissionais de diferentes áreas como bibliotecários, professores e pessoas que atuam nos campos da comunicação e da cultura. No entanto, isso não significa que qualquer pessoa esteja apta a conduzir a prática. “Mais do que gostar de livros, o biblioterapeuta precisa conhecer profundamente as obras que indica. Ler apenas resenhas ou sinopses não é suficiente, já que uma narrativa pode abordar situações ou desfechos que não sejam adequados ao momento de vida do leitor”, pontua o escritor Galeno Amorim.

Além do conhecimento literário, é fundamental desenvolver habilidades de escuta, acolhimento e diálogo, oferecendo atenção sem julgamentos e respeitando a individualidade. “Embora a atividade não exija formação específica, existem cursos de capacitação que preparam os interessados para aplicar a Biblioterapia de forma ética e responsável”, sinaliza. Já a Biblioterapia Clínica é destinada ao contexto da saúde e integra o tratamento. Neste caso, a condução exige formação prévia em áreas como Psicologia, Psiquiatria ou Medicina, pois a leitura passa a ser utilizada como um recurso terapêutico dentro de um plano clínico. Assim, quando não é um profissional da saúde, o biblioterapeuta não atua de forma independente. Entretanto, pode colaborar em equipes multidisciplinares auxiliando na seleção de obras e contribuindo para complementar o cuidado ao paciente.

Projeto desenvolvido na Inglaterra e no País de Gales

A Inglaterra e o País de Gales já possuem um projeto no qual o livro é prescrito por um profissional da saúde para ajudar na compreensão e no gerenciamento da saúde e do bem-estar de pacientes. Com o Reading Well, oferecido com a colaboração de bibliotecas públicas, os livros recomendados podem ser prescritos por médicos de família, agentes comunitários de saúde e assistentes sociais. Desde a criação, em 2013, o programa desenvolveu uma ampla rede de parceiros de saúde e, atualmente, está levando bem-estar por meio da leitura para crianças de 7 a 11 anos. De acordo os responsáveis, o programa é um grande aliado na busca pela saúde integral.

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