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Genética amplia as respostas e abre caminhos

Escrito por: Fernanda Ortiz

Os avanços da Medicina Genômica transformaram a compreensão dos transtornos do neurodesenvolvimento nas últimas décadas. Se antes a análise genética era limitada e raramente esclarecia a origem desses quadros, hoje, as tecnologias permitem identificar alterações associadas a parte dos casos, ampliando as possibilidades de diagnóstico, acompanhamento e aconselhamento às famílias. Os exames genéticos, no entanto, não substituem a avaliação clínica nem definem, isoladamente, essas condições. Seu papel é complementar a investigação, contribuindo para esclarecer a base biológica dos transtornos, trazer informações sobre possíveis comorbidades e prognósticos, orientar o aconselhamento às famílias, estimar o risco de recorrência em futuras gestações e favorecer, no futuro, o desenvolvimento de terapias cada vez mais direcionadas. Na prática, os avanços da genética também modificaram a abordagem dos pacientes.

De acordo com o médico geneticista Salmo Raskin, presidente do Departamento Científico de Genética da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a atuação do especialista começa antes mesmo da solicitação de exames laboratoriais. O primeiro passo é investigar se a pessoa apresenta um quadro isolado do neurodesenvolvimento ou se isso faz parte de uma síndrome genética mais ampla. “Nos casos de síndromes, a alteração do neurodesenvolvimento representa apenas uma das manifestações clínicas, que podem incluir malformações cardíacas, alterações físicas ou outros problemas de saúde que, em algumas situações, podem ter repercussões mais importantes do que o próprio quadro do neurodesenvolvimento”, observa. Além disso, uma mesma alteração genética pode estar associada a diferentes manifestações clínicas em uma mesma família, a exemplo de TEA, transtorno bipolar, esquizofrenia ou TDAH, mostrando que outros mecanismos biológicos e ambientais influenciam a forma como essas alterações se expressam.

Nos últimos 15 anos, as tecnologias genômicas ampliaram a capacidade de identificar alterações associadas aos transtornos do neurodesenvolvimento. Para o geneticista Salmo Raskin, exames como o sequenciamento do exoma e sequenciamento do genoma permitem analisar milhares de genes e identificar alterações muito pequenas no DNA, inclusive em uma única base genética. Esses recursos ampliaram a capacidade de identificar alterações genéticas e contribuíram para uma compreensão mais aprofundada da base biológica desses transtornos. “O TEA exemplifica bem essa complexidade. Estudos com gêmeos idênticos demonstram concordância em torno de 80%, indicando forte influência genética, mas também evidenciam a participação de outros elementos”, comenta.

Entre os fatores ambientais associados estão prematuridade, algumas infecções durante a gestação e exposição a determinados medicamentos. Apesar da evolução tecnológica, ainda não é possível identificar todas as alterações genéticas envolvidas nos transtornos do neurodesenvolvimento. Atualmente, os exames conseguem identificar alterações genéticas reconhecidas como associadas ao autismo em cerca de 40% dos casos, dado que evidencia tanto os avanços da Medicina Genômica quanto seus limites atuais, já que provavelmente existem outros fatores genéticos ainda não identificados. “A influência genética também é relevante na deficiência intelectual, uma vez que é reconhecida como uma das principais causas no mundo. No Brasil, porém, há uma provável subnotificação da síndrome alcoólica fetal, associada ao consumo de álcool durante a gestação. Essa alteração não genética representa uma importante causa evitável de comprometimento intelectual”, destaca o médico geneticista.

Mais precisão

Apesar de representarem uma ferramenta valiosa para esclarecer possíveis causas, os exames genéticos não confirmam nem descartam, isoladamente, esses diagnósticos. A avaliação continua sendo essencialmente clínica e depende da análise do desenvolvimento, do comportamento e da história do paciente por equipe especializada. Quando uma alteração genética é identificada, entretanto, oferece informações importantes para compreender melhor cada caso, orientar condutas, antecipar possíveis complicações e ampliar as possibilidades de cuidado. “Em algumas síndromes, por exemplo, variantes específicas estão associadas a um maior risco de epilepsia, justificando o acompanhamento antes mesmo do surgimento das primeiras crises”, enfatiza. O resultado também orienta o aconselhamento genético e, além de permitir estimar com maior precisão o risco de recorrência em futuras gestações, em alguns casos específicos pode ser utilizado para alternativas reprodutivas como o diagnóstico genético em embriões antes da implantação, no contexto de uma fertilização in vitro.

Outro avanço é a ampliação do acesso aos testes genéticos. Segundo o especialista, o sequenciamento do exoma foi anunciado para incorporação gradual ao Sistema Único de Saúde (SUS), com expectativa de início a partir do próximo ano. “Com maior capacidade de detecção do que métodos mais antigos, como o microarray cromossômico – exame que identifica pequenas perdas ou ganhos de material genético –, essa incorporação poderá ampliar o acesso da população à investigação genética, hoje concentrada principalmente na rede privada”, comenta. Além de ajudar a esclarecer a origem de alguns casos, os avanços da Medicina Genômica também abrem perspectivas para tratamentos direcionados aos mecanismos biológicos envolvidos em cada condição. Para o especialista, essa evolução representa uma mudança de paradigma, porque a área deixa de atuar apenas na investigação e no prognóstico e passa a contribuir também para o desenvolvimento de terapias específicas.

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