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O direito de aprender e participar

Escrito por: Fernanda Ortiz

Garantir uma vaga na escola regular representa um importante avanço no acesso de estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento ao ensino comum, mas a inclusão vai muito além da matrícula. Um aluno pode frequentar a sala de aula e, ainda assim, permanecer afastado das experiências de aprendizagem se encontrar barreiras que dificultem a sua participação. Para que crianças e adolescentes vivenciem de fato o ambiente escolar são necessários a eliminação de obstáculos, estratégias pedagógicas individualizadas e um ambiente preparado para acolher diferentes formas de aprender. Nesse processo, comunidade escolar e família compartilham a responsabilidade de transformar o direito à educação em uma experiência de aprendizagem real. Portanto, a presença de uma criança com transtorno do neurodesenvolvimento na escola, por si só, não garante inclusão.

Para o doutor em educação especial Nassim Chamel Elias, pesquisador e professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), é necessário mudar a lógica do ensino. Assim, em vez de esperar que todos acompanhem um modelo único de aprendizagem, a escola deve reconhecer diferentes formas de desenvolvimento e participação. “Não faz sentido pensar apenas nas limitações do aluno. Também precisamos analisar as condições oferecidas pelo ambiente para que essa criança ou esse adolescente consiga aprender, participar e alcançar seu potencial”, avalia. A mudança envolve repensar práticas pedagógicas e formas de interação para que as diferenças individuais sejam consideradas parte do processo educativo, e não obstáculos à aprendizagem.

A convivência com os colegas é um dos principais benefícios da inclusão escolar, pois favorece a socialização e estimula a chamada ‘aprendizagem incidental’, processo em que habilidades são desenvolvidas por meio das experiências compartilhadas no cotidiano. “Nós, seres humanos, aprendemos muito observando e imitando. A criança aprende vendo outra criança brincar, se comunicar e participar das atividades”, acentua o professor. Entretanto, a simples permanência na sala de aula não garante esse processo. É preciso que o estudante esteja envolvido nas propostas pedagógicas e receba os apoios necessários para vivenciar essas experiências. No caso do TEA, por exemplo, a diversidade de perfis reforça a importância de estratégias adaptadas às diferentes formas de comunicação, interação e aprendizagem.

Para o pesquisador, transformar a inclusão em uma experiência real exige mudanças na organização da comunidade escolar. “A formação continuada é um dos principais desafios, já que muitos educadores ainda não recebem preparo suficiente, durante a graduação, para lidar com a diversidade presente nas salas de aula”, observa. Além da capacitação das equipes, a escola deve adotar estratégias que reduzam barreiras pedagógicas e considerem diferentes formas de aprendizagem. Nesse processo, a articulação entre escola, família e profissionais da saúde é fundamental. Em resumo, a família contribui com informações sobre a história, as habilidades e as dificuldades da criança para a construção do Plano Educacional Individualizado (PEI), enquanto os profissionais colaboram em aspectos como comunicação, autonomia, mobilidade e interação social.

Desafios atuais

Apesar dos avanços na legislação, a inclusão escolar ainda enfrenta desafios como a falta de recursos, materiais adaptados, tecnologias assistivas e formação adequada das equipes. O pesquisador Nassim Chamel Elias também chama atenção para o capacitismo, o preconceito e o bullying, que podem limitar as expectativas sobre as capacidades desses estudantes e dificultar a participação plena no ambiente escolar. Portanto, mais do que garantir a presença física na sala de aula, a inclusão depende da criação de condições para que cada criança tenha acesso às experiências de aprendizagem, desenvolva suas habilidades e participe da vida escolar de forma efetiva. “O ponto central é reconhecer que cada criança pode desenvolver suas potencialidades quando encontra um ambiente preparado para isso. Afinal, são as condições oferecidas que favorecem ou dificultam esse aprendizado”, finaliza. •

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