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Transtornos do neurodesenvolvimento

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Cuidados com os transtornos do neurodesenvolvimento

Escrito por: Fernanda Ortiz

O desenvolvimento infantil resulta da interação entre fatores biológicos, genéticos, ambientais e sociais. Nesse processo, algumas crianças podem apresentar alterações em áreas como comunicação, linguagem, aprendizagem, comportamento, interação social ou habilidades motoras. Essas condições fazem parte dos transtornos do neurodesenvolvimento, grupo que inclui o transtorno do espectro autista (TEA), o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), a deficiência intelectual e os transtornos da comunicação, da aprendizagem e do desenvolvimento motor. Apesar das manifestações distintas, todos esses quadros têm início na infância e podem impactar diversos aspectos do cotidiano. Mais do que rótulos, representam variações do funcionamento cerebral e exigem um cuidado individualizado que considere as características de cada criança, seu contexto e os suportes necessários para promover autonomia e qualidade de vida.

Embora não exista uma estimativa única para todo o grupo dos transtornos do neurodesenvolvimento, há dados epidemiológicos consolidados para algumas das condições mais frequentes, especialmente o TEA e o TDAH. No Brasil, o Censo Demográfico mais recente, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA, o equivalente a 1,2% da população. Entre crianças de 5 a 9 anos, a proporção chegou a cerca de 5%. Nos Estados Unidos, dados divulgados em 2025 pela agência de saúde pública Centers for Disease Control and Prevention (CDC) apontaram que de 1 a cada 31 crianças de oito anos, aproximadamente 3,1% foram identificadas com a condição – considerando informações coletadas em 2022. O TDAH, por sua vez, apresenta prevalência estimada entre 5% e 7% da população de crianças e adolescentes em estudos internacionais, embora os índices variem conforme os critérios diagnósticos utilizados.

Os transtornos do neurodesenvolvimento representam condições que surgem na infância e envolvem trajetórias distintas de aquisição de habilidades, com manifestações que podem variar em intensidade, combinação de sinais e impacto no cotidiano. Uma mesma condição pode se apresentar de formas diferentes entre as crianças, assim como uma mesma manifestação pode estar presente em diferentes quadros. Para o neurologista infantil Marlos Melo Martins, chefe da Unidade de Neurologia, Nutrologia e Genética do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPMG-UFRJ), a compreensão desses transtornos ajuda a superar uma visão centrada apenas na doença ou na busca por uma ‘cura’. “Esses quadros estão relacionados principalmente ao desenvolvimento infantil e podem repercutir na funcionalidade em algum momento. Por isso, o foco está no cuidado, na compreensão das necessidades individuais e nos suportes capazes de favorecer as habilidades, a autonomia e a participação da criança nos diferentes contextos”, explica.

A capacidade de adaptação do cérebro durante o desenvolvimento, conhecida como neuroplasticidade, é um dos aspectos que reforçam a importância da identificação e da intervenção precoces nos transtornos do neurodesenvolvimento. “Esse processo corresponde às mudanças na estrutura ou no funcionamento cerebral desencadeadas por estímulos e experiências, sendo mais intenso durante a primeira infância, quando o cérebro ainda está em formação. Essa característica cria uma janela de oportunidade para favorecer o desenvolvimento de habilidades e modificar padrões de funcionamento, especialmente por meio de intervenções adequadas e individualizadas”, avalia o neurologista infantil Marcelo de Melo Aragão, preceptor da residência médica em Neurologia infantil na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp). Entretanto, a neuroplasticidade não representa necessariamente apenas mudanças positivas, uma vez que as experiências às quais a criança é exposta podem influenciar a forma como o cérebro se adapta. Nesse contexto, identificar precocemente fatores de risco e oferecer suportes adequados pode favorecer o desenvolvimento ao longo da vida.

A origem desses transtornos envolve uma combinação complexa de elementos. Embora apresentem forte influência genética, aspectos ambientais podem atuar sobre essa predisposição desde o período pré-natal até os primeiros anos de vida, influenciando o desenvolvimento cerebral em interação com as características biológicas de cada criança. Entre esses aspectos estão condições como prematuridade, complicações durante a gestação e o nascimento, infecções maternas e exposições ambientais específicas que podem interferir nos processos de desenvolvimento do sistema nervoso. “Esses elementos, entretanto, não determinam isoladamente o surgimento de um transtorno, mas podem exercer papel decisivo na forma como as alterações se manifestam e seu impacto no desenvolvimento individual”, afirma o neurologista Marlos Melo Martins.

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