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Transtornos do neurodesenvolvimento

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Diagnóstico exige avaliação ampla e individualizada

Escrito por: Fernanda Ortiz

Ainda não há um marcador biológico único capaz de confirmar, de forma isolada, o diagnóstico dos transtornos do neurodesenvolvimento. Por isso, a avaliação integra informações sobre a história do desenvolvimento da criança, seus comportamentos, habilidades, comunicação, interação social, aprendizagem e a forma como responde às demandas da família, da escola e de outros ambientes onde está inserida. Também podem ser considerados os relatos de professores, que ajudam a compreender como essas características se manifestam no cotidiano. Assim, mais do que um momento pontual, o diagnóstico é construído ao longo do acompanhamento considerando a evolução dos sinais e seus impactos na funcionalidade, na participação social e no desenvolvimento da criança.

Nesse processo, a avaliação neuropsicológica complementa a investigação ao analisar o perfil cognitivo, comportamental e funcional, incluindo aspectos como atenção, memória, linguagem, funções executivas, comportamento, interação social e autonomia. A partir das hipóteses levantadas na entrevista inicial, o profissional direciona a investigação para os aspectos mais relacionados à queixa apresentada. “Assim, uma criança com baixo rendimento escolar, por exemplo, pode apresentar não apenas um possível transtorno de aprendizagem, mas também dificuldades de atenção, questões emocionais ou situações familiares que estejam interferindo em seu desenvolvimento”, explica a neuropsicóloga Gabriella Koltermann, doutora em Psicologia e integrante do Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Neurocog/UFRGS).

Os instrumentos utilizados variam conforme a idade, a queixa apresentada e as hipóteses levantadas durante a avaliação. Entre eles estão testes padronizados de funcionamento intelectual, atenção, memória, linguagem, funções executivas, desempenho escolar, comportamento e habilidades adaptativas. No entanto, os resultados não devem ser interpretados de forma isolada. Para a especialista, conhecer a história, a rotina, as relações e os diferentes ambientes em que a criança está inserida é essencial para compreender o significado dos achados e orientar estratégias de cuidado. “Às vezes, a história da família, da escola e das brincadeiras traz informações muito mais ricas do que o desempenho da criança em um teste”, afirma. Essa compreensão mais ampla da avaliação torna-se ainda mais relevante diante da busca crescente por avaliações, muitas vezes acompanhada da expectativa de que o diagnóstico possa explicar todas as dificuldades apresentadas. No entanto, a avaliação neuropsicológica vai além da confirmação ou exclusão de um transtorno, pois busca compreender de forma ampla as potencialidades e limitações da criança.

Para a especialista, essa abordagem reduz o risco de diagnósticos equivocados que podem levar a intervenções inadequadas e à criação de rótulos, assim como favorece a identificação precoce de dificuldades que, quando passam despercebidas, retardam o acesso ao suporte necessário. Durante a infância, esse reconhecimento permite um acompanhamento mais direcionado e a construção de uma rede de apoio envolvendo família, escola e profissionais da saúde. Além disso, a neuropsicóloga chama atenção para situações que podem dificultar o cuidado adequado, como a subestimação das necessidades apresentadas e a busca por diagnósticos idealizados. “Enquanto algumas crianças continuam sendo vistas como ‘preguiçosas’ ou apenas em uma fase, outras famílias chegam ao consultório com a expectativa de identificar altas habilidades na criança, por exemplo. Nesse contexto, a avaliação também exerce um papel educativo, ajudando a família a compreender que um diagnóstico não define sozinho a trajetória da criança”, enfatiza. Atualmente, um dos grandes desafios está na formação dos profissionais que atuam nessa área, já que uma avaliação de qualidade depende não apenas da aplicação correta dos instrumentos, mas também da capacidade de integrar informações e compreender cada caso em seus diferentes contextos.

Estratégias de cuidado

A família tem participação fundamental nesse processo. Desde o início da avaliação clínica, os profissionais precisam acolher dúvidas, inseguranças e sentimento de culpa que podem surgir nos responsáveis. Assim, após o diagnóstico e a análise do perfil da criança são elaboradas orientações individualizadas que podem envolver organização da rotina, uso adequado de telas, estratégias de aprendizagem e definição das prioridades terapêuticas. Algumas crianças podem ter indicação para diferentes acompanhamentos como psicoterapia, fonoaudiologia, psiquiatria ou orientação parental. “No entanto, é importante organizar esse percurso de acordo com as necessidades e possibilidades de cada família. Cabe ao médico responsável orientar essa busca, compreender o que é prioridade naquele momento e identificar quais estratégias podem contribuir mais para aquela criança”, orienta o neurologista infantil Marcelo de Melo Aragão, da EPM-Unifesp.

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