A ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) é uma das lesões mais graves e frequentes no futebol, afetando a estabilidade do joelho e a continuidade da prática esportiva. O tratamento mais indicado é o cirúrgico, sobretudo em atletas que desejam retornar à atividade competitiva. O tempo médio para retorno ao futebol após a reparação varia entre seis e nove meses, podendo ser maior dependendo da evolução do atleta. Entretanto, um estudo utilizando tecnologias vestíveis mostrou que o período de recuperação adotado nem sempre é o suficiente para liberação e volta aos campos.
O alerta surgiu após uma tese de doutorado realizada pelo pesquisador João Belleboni Marques dentro do Hospital Aspetar, no Catar, com 26 jogadores de futebol da Qatar Stars League – a principal liga profissional daquele país –, incluindo competidores da Liga dos Campeões da Confederação Asiática de Futebol. Entre os voluntários, 10 tinham histórico de lesão do LCA, optaram pela reconstrução cirúrgica e, em seguida, foram submetidos a um programa intensivo de reabilitação supervisionada. Todos utilizaram sensores de movimento que foram fixados em pontos de pelve, coxas, canelas e pés, além de palmilhas com medidores de pressão colocadas dentro da chuteira.
Com essas tecnologias vestíveis (wearables), os pesquisadores analisaram com alta precisão como o corpo dos atletas reagia a movimentos típicos do futebol. Dentre elas, a tarefa de mudança de direção (COD) envolvendo um corte de 90°, ou seja, o atleta corre em uma linha reta por 10 a 15 metros e faz uma manobra de mudança de direção de 90º. “Esse movimento exige desaceleração e torque articular, sendo um dos momentos mais críticos para o joelho”, explica o professor doutor Paulo Roberto Pereira Santiago, orientador do trabalho e docente da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EEFERP-USP).
Ao avaliar o tempo necessário para a realização da tarefa, o estudo verificou que os atletas submetidos ou não à cirurgia apresentaram desempenhos semelhantes nas mudanças de direção para a direita e para a esquerda, considerando a comparação do atleta consigo mesmo. Entretanto, os dados obtidos pelos sensores indicaram que os atletas operados exibiam alterações discretas, porém relevantes, na mecânica do movimento. Nesta tarefa de mudança de direção não houve diferença no tempo de execução, o que pode levar à conclusão de que o profissional está em condições físicas de voltar a jogar. “Mas, ao olhar o padrão de movimento por meio das tecnologias vestíveis, a perna lesionada apresentava menor grau de flexão do joelho e menor aplicação de força durante a manobra, mesmo após nove meses de reabilitação”, pontua o docente.
Os resultados do estudo mostram que, mesmo com a recuperação clínica, o atleta ainda mantém um padrão compensatório de movimento – o que pode elevar o risco de uma nova lesão. “Isso é um agravante, pois há alteração no gesto e maior força do lado não lesionado, como se existisse uma compensação. Logo, é comum o mesmo jogador apresentar lesão do membro contralateral (lado oposto) em até dois anos”, alerta o professor. Portanto, embora a abordagem mais acertada não elimine o risco de novas lesões, colabora com a longevidade do atleta no esporte. Além disso, a identificação dessa assimetria biomecânica entre os membros permite ao profissional de reabilitação trabalhar de forma mais direcionada.
Atualmente, tanto as tecnologias quanto os equipamentos utilizados no estudo já estão disponíveis em laboratórios de biomecânica e centros de reabilitação de alto desempenho. No entanto, são específicos para o esporte e têm custo mais elevado. “Acredito que, com o tempo, estará acessível a mais pessoas. Assim como outras ferramentas, as tecnologias vestíveis devem se popularizar entre clubes de futebol e outros esportes de alto rendimento”, acrescenta.

