Os serious games (jogos sérios) utilizam elementos típicos dos videogames – como desafios, pontuação, missões e recompensas – com um propósito que vai além do entretenimento. Esses instrumentos são desenvolvidos para ensinar, treinar, avaliar habilidades ou auxiliar em tratamentos e pesquisas. No caso do transtorno do espectro autista (TEA), os serious games vêm sendo estudados como ferramentas complementares ao diagnóstico. Um estudo brasileiro investigou se um jogo, baseado na captação de movimentos repetitivos, seria capaz de identificar e distinguir pessoas com o diagnóstico dos transtornos neurotípicos servindo, assim, como uma metodologia complementar ao processo de triagem.
Para o trabalho foi utilizado o jogo Bubbles, desenvolvido pelo Laboratório de Jogos Virtuais para Reabilitação da Universidade de São Paulo (USP), no qual o participante deve usar os braços para interceptar bolhas que surgem na tela do computador. O tempo de acerto configurou-se como o principal achado do estudo. Os indivíduos com transtorno do espectro autista responderam de forma consistentemente mais lenta em todos os momentos do jogo, evidenciando um padrão motor marcadamente distinto. “Essa diferença foi robusta e sustentada ao longo de toda a tarefa, mesmo com a melhora progressiva observada em ambos os grupos”, explica a pesquisadora Fernanda Orosco, mestre em Educação Física pela Escola de Educação Física e Esporte da USP (EEFE-USP) e responsável pelo trabalho.
De acordo com o professor doutor Carlos Bandeira de Mello Monteiro, coordenador do laboratório de jogos virtuais da USP, a proposta é desenvolver jogos integrados a uma plataforma capaz de auxiliar no rastreamento de crianças com transtorno do espectro autista e outras deficiências cognitivas. “A plataforma utiliza indicadores de desempenho motor e cognitivo obtidos durante a interação com os jogos para estabelecer padrões de performance”, pontua. A partir da comparação entre o desempenho do paciente e esses padrões é possível identificar características que possam indicar a necessidade de uma avaliação clínica mais detalhada, contribuindo para o encaminhamento ao médico.
Dois grupos
A avaliação dos participantes foi realizada na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Tatuí, no interior de São Paulo, com um grupo experimental formado por 38 pessoas com TEA e grupo controle composto por 38 alunos típicos de um colégio particular de São Bernardo do Campo (ABC paulista). Os participantes eram de ambos os sexos e com idade entre 5 e 25 anos. Por meio da webcam do computador, o Bubbles captava os movimentos realizados pelos participantes, que tinham por objetivo estourar as bolinhas em busca da melhor pontuação – que contabiliza de 0 a 100.
Os voluntários realizaram a atividade três vezes. As crianças atípicas tiveram o momento zero para se familiarizarem com o processo – uma vez que muitas nunca tinham tido contato com um jogo com sensor de movimentos anteriormente. Para a pesquisadora Fernanda Orosco, trabalhar com esses jogos virtuais não imersivos, ou seja, que não têm óculos, deixa os participantes mais à vontade, sem a impressão de que estão fazendo um teste. “Sabemos que quando passamos por um processo de avaliação envolve o psicológico e pode dar diferença nos resultados. Por meio da tecnologia como o Bubbles temos resultados mais precisos e reais”, reforça.
A importância do diagnóstico precoce
A captação dos movimentos pelo Bubbles – ou tecnologias que usam a mesma finalidade – são importantes, porque as dificuldades motoras no TEA costumam ser negligenciadas, embora aconteçam simultaneamente com as características sociais e de comunicação conhecidas do transtorno. De acordo com os pesquisadores, isso ocorre porque os problemas emocionais, intelectuais e de linguagem desses indivíduos são mais perceptíveis. Além disso, o desenvolvimento da parte motora, muitas vezes, é ignorado pelos familiares por acreditarem que haverá uma melhora com o decorrer do tempo. Para o professor doutor Jorge Alberto de Oliveira, pesquisador do Laboratório de Comportamento Motor (LACOM-EEFE-USP) e coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Desenvolvimento Infantil (GEADI), esse é um erro que compromete todo o desenvolvimento. “Ao identificar a dificuldade motora, um programa de intervenção com a atividade física colabora com o desenvolvimento motor e, comprovadamente, gera benefícios em outros comportamentos típicos do TEA”, ressalta.
A pesquisadora Fernanda Orosco complementa que, além da precisão diagnóstica, a tecnologia tem baixo custo e é acessível. Além disso, os jogos são atrativos, podem ser um auxiliar no desenvolvimento, servir como avaliação de ferramentas de tratamento e um recurso para acompanhar a evolução terapêutica dos pacientes. O professor Carlos Bandeira de Mello Monteiro acentua que a proposta é desenvolver jogos integrados a uma plataforma capaz de auxiliar no rastreamento de crianças com TEA e outras deficiências cognitivas. “A partir da comparação entre o desempenho do paciente e esses padrões é possível identificar características que indiquem a necessidade de avaliação clínica mais detalhada”, pontua. •

